19 de Novembro de 2009

Soneto da Fidelidade....de Vinicius de Moraes





















De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.


E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


VINICIUS DE MORAES

13 de Novembro de 2009

ESTA ESPÉCIE DE LOUCURA....poema de ....FERNANDO PESSOA
















Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há



 
Fernando Pessoa
 in "Cancioneiro"

9 de Novembro de 2009

HINO DA PRIMEIRA CARTA AOS CORINTIOS.......... São Paulo ( Século I)














Se eu falasse as línguas dos homens e até as dos anjos, mas não  tivesse amor
seria bronze que soa  ou címbalo que tine.

Se tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e todos os saberes, se a minha fé fosse a ponto de mover montanhas, mas não tivesse amor, eu nada seria.

Se  repartisse pelos pobres tudo quanto tenho, e meu corpo entregasse ás labaredas mas não tivesse amor, nada ganharia.

O amor paciente, repleto de bondade, o amor que desconhece inveja e não ostenta orgulho,  o amor sem vaidade, que descura o próprio interesse, e não se irrita e não suspeita mal, o amor que não colhe alegria da injustiça, mas se alegra com  a verdade;
tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor jamais acabará:

há um tempo em que vacilam as profecias, as línguas emudecem e o saber desaparece 
porque só em parte conhecemos e só em parte profetizamos, mas quando chega a perfeição
os limites apagam-se.

Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança, pensava como criança:
quando me tornei homem abandonei as coisas de criança.

Agora vemos para um espelho, e de maneira obscura, o que depois veremos face a face.

Agora conheço apenas uma parte, mas então conhecerei conforme também sou conhecido.

Agora permanecem fé, esperança, amor, todos juntos.

Agora o maior de todos é o amor.



*****

 Tradução de : José Tolentino Mendonça
do livro * Rosa do Mundo *

5 de Novembro de 2009

* Tive Um Coração, Perdi-o *....poema de AMÁLIA RODRIGUES
























Tive um coração, perdi-o
Ai quem mo dera encontrar,
Preso no fundo do rio
Ou afogado no mar.

Quem me dera ir embora,
Ir embora sem voltar,
A morte que me namora
Já me pode vir buscar.

Tive um coração, perdi-o
Ainda o vou encontrar,
Preso no lodo do rio,
Ou afogado no mar.


AMÁLIA RODRIGUES
do livro " Amália, Fados, Poemas e Flores "

1 de Novembro de 2009

A Folha de Salgueiro...... poema de António Feijó















Adoro essa mulher moça e formosa,
Que à janela, a sonhar, vejo esquecida,
Não por ter uma casa sumptuosa
Junto ao Rio Amarelo construída...
- Amo-a porque uma folha melindrosa
deixou cair nas águas, distraída.


Também adoro a brisa do Levante,
Não por trazer a essência virginal
Do pessegueiro que floriu distante,
No pendor da Montanha Oriental...
Amo-a porque impeliu a folha errante
Ao  meu batel, no lago de cristal.


E adoro a folha, não por ter lembrado
A nova Primavera que rompeu,
Mas por causa do nome idolatrado
Que essa jovem mulher nela escreveu
Com a doirada agulha do bordado...
E esse nome...era o meu!




António Feijó


do Livro * ROSA DO MUNDO *


27 de Outubro de 2009

AÇORES..... poema de VITOR CINTRA
















Nove ilhas de beleza deslumbrante,
Surgidas do profundo mar imenso,
Que o mundo conheceu porque o Infante
Tornou o nevoeiro menos denso.

Encostas de mosaicos verdejantes
Elevam-se, rumando ao infinito.
Hortênsias, feitas sebes, são constantes,
Tornando o colorido mais bonito.

Ali, onde gigantes residiram,
Os cumes das montanhas que explodiram,
Tornados em lagoas de beleza,

Relembram, aos herdeiros dos atlantes,
Que até já os primeiros navegantes
Sabiam respeitar a natureza.


VITOR CINTRA

do livro " Entre o Longe e o Distante "

25 de Outubro de 2009

NO MEIO DO MAR poema de " JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO "
















Nasci nas ondas que beijam
As encostas dum vulcão…
E quando à noite adormeço
A minha terra é o berço
Que embala o meu coração!

Por tecto só tenho nuvens
Meu horizonte é o mar …
Se tivesse asas, um dia,
Certamente que partia
Para nunca mais voltar.

…………………………….

Querer partir e não ter
Um chão para caminhar!



JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

24 de Outubro de 2009

Sim, Sei Bem ....poema de FERNANDO PESSOA




















Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.


FERNANDO PESSOA

22 de Outubro de 2009

O Sonho...poema de....SEBASTIÃO DA GAMA

















Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

-Partimos. Vamos. Somos.

SEBASTIÃO DA GAMA

20 de Outubro de 2009

URGENTEMENTE.....poema de....EUGÉNIO DE ANDRADE




É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
Muitas espadas.

É urgente inventar a alegria,
Multiplicar as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
Impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
Permanecer.

EUGENIO DE ANDRADE

16 de Outubro de 2009

No Meio o Mundo....poema de ...VITORINO NEMÉSIO














Com medo de o perder nomeio o mundo
Seus quantos e qualidades, seus objectos
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos


Nomeei as coisas e fiquei contente
Prendi a frase ao texto do universo
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente
Em cada pausa e pulsação, um verso. 



VITORINO NEMÉSIO

12 de Outubro de 2009

Um Poema.....de MIGUEL TORGA






Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

MIGUEL TORGA

11 de Outubro de 2009

Amélia dos Olhos Doces...poema de ...JOAQUIM PESSOA




Amélia dos Olhos Doces
quem é que te trouxe
grávida de esperança?
Um gosto de flor na boca.
Na pele e na roupa
perfumes de França.

Cabelos cor de viúva.
Cabelos de chuva.
Sapatos de tiras
e pões, quantas vezes
não queres e não amas
os homens que dormem
contigo na cama.

Amélia dos Olhos Doces
quem dera que fosses
apenas mulher.
Amélia dos Olhos Doces
se ao menos tivesses
direito a viver!

Amélia gaivota
amante ou poeta.
Rosa de café.
Amélia gaiata
do Bairro da Lata.
Do Cais do Sodré.

Tens um nome de navio.
Teu corpo é um rio
onde a sede corre.
Olhos Doces. Quem diria
que o amor nascia
onde Amélia morre?

Cabelos cor de viúva.
Cabelos de chuva.
Sapatos de tiras
e pões, quantas vezes
não queres e não amas
os homens que dormem
contigo na cama.

Joaquim Pessoa

10 de Outubro de 2009

HOJE----------- Lançamento do Novo Livro do Poeta VITOR CINTRA " ENTRE O LONGE E O DISTANTE "



Apresentação em simultâneo
a ideia ganhou força e vai mesmo acontecer.
Porque não é possível convidar pessoalmente todos os amigos do poeta VITOR CINTRA, deixo-vos aqui o convite.


ENTRE O LONGE E O DISTANTE





****************

LOUCOS ......poema de VITOR CINTRA





Não são muitos, nem são poucos,
Os poetas, bem seguros,
Encerrados entre muros
Sob o rótulo de loucos.

São apenas os bastantes
P'ra provar que a poesia
É temida, e não devia,
Tanto ou mais do que era dantes.

Porque abordam quaisquer temas,
Nas estrofes dos poemas,
Incomodam co'as verdades.

É por isso que os poetas
São, por formas indirectas,
Reprimidos entre grades.


VITOR CINTRA

do livro " RELANCES "

9 de Outubro de 2009

A SOLIDÃO DE UM HOMEM NA SUA CASA ...poema de Alexandre Dale






Aquele homem estava em sua casa,
a comer bolachas com manteiga
e a beber leite frio.
A certo momento,
deu-lhe para reparar em todas as coisas
que o rodeavam.
Havia meias de mulher
numa corda esticada por cima da sua
cabeça, loiça suja sobre a
mesa, fruta de verão a
apodrecer
— e até, algures, um
gato.

Havia muitas coisas, sem dúvida,
mas aquelas três ou quatro bastavam-lhe
para que se sentisse um estranho
naquele lugar — ou ele mesmo,
mas noutro lugar. Era como
se estivesse ali pela primeira vez.
e daí sentiu
que podia estar a ser
como se fosse um homem
de qualquer parte do mundo:
um homem com as suas
questões habituais,
os seus problemas típicos,
as suas esperanças,
os seus receios.
Um homem sozinho — porque
membro de toda e qualquer família,
pai de todos os filhos, amante ou
companheiro de todas as mulheres,
sangue,
avô,
amizade,
semelhante.

E então aquele homem pensou:
agora
vou-me deitar ao lado da minha
mulher, que dorme hoje na
falta de mim — eu, talvez perdido
na obscura noite das minhas obsessões
— e, no entanto,
parece-me que tudo isto
está cada vez mais estranho.
Quer dizer: não sei que mulher é essa.
Não a conheço.
Pensando bem, nem sequer das suas feições
me consigo lembrar.
todavia, sei que está lá.
Desejo-a.
Através dela, cavalheiros,
aprendi que todas as mulheres desejam sentir,
cada vez que fazem amor,
o incómodo ou dúbio prazer
de estarem a ser violadas.

E então o homem escreve,
e sente-se só, na sua casa,
e não sabe o que há-de fazer.

Fuma.

Escreve mais um pouco.
Talvez escreva isto.
Talvez escreva:
"sei muito bem do que estou a falar".

Mas a verdade é que é muito difícil
falar-se da solidão de um homem
na sua própria casa.
Sei muito bem
do que estou a falar.


ALEXANDRE DALE

3 de Outubro de 2009

Não Posso Adiar.... A.RAMOS ROSA





Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio

Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

A.RAMOS ROSA

1 de Outubro de 2009

Amor Combate ....poema de JOAQUIM PESSOA





Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue. É seiva. É sol. É Primavera.
Amor intenso. amor imenso. amor instante.
O nosso amor é uma arma. É uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.


JOAQUIM PESSOA

30 de Setembro de 2009

Eu sei, Não te conheço Mas existes....poema de JOAQUIM PESSOA





Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.

Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
Não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo.
.

JOAQUIM PESSOA

Viver Sempre Também Cansa....poema de JOSÉ AUGUSTO GOMES FERREIRA




Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!


Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis
meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar por uma bagatela.


"E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...


JOSÉ AUGUSTO GOMES FERREIRA

25 de Setembro de 2009

ESPERO poema de Sophia de Mello Breyner Andersen




Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.



Sophia de Mello Breyner

20 de Setembro de 2009

COMO UMA ILHA,SOZINHA de Pedro Abrunhosa




Tu és todos os livros,
Todos os mares,
Todos os rios,
Todos os lugares.
Todos os dias,
Todo o pensamento,
Todas as horas
O teu corpo no vento.

Tu és todos os sábados,
Todas as manhãs,
Toda a palavra
Ancorada nas mãos.
Tu és todos os lábios,
Todas as certezas,
Todos os beijos
Desejos, princesa.

Como uma ilha,
Sozinha...

Prende-me em ti,
Agarra-me ao chão,
Como barcos em terra
Como fogo na mão,
Como vou esquecer-te,
Como vou eu perder-te,
Se me prendes em ti,
Agarra-me ao chão,
Como barcos em terra,
Como fogo na mão,
Como vou eu lembrar-te
Se a metade que parte
É a metade que tens.

Tu és todas as noites
Em todos os quartos,
Todos os ventos
Em todos os barcos.
Todos os dias
Em toda a cidade,
Ruas que choram
Mulheres de verdade.
Tu és só o começo
De todos os fins,
Por isso eu te peço
Fica perto de mim.
Tu és todos os sons
De todo o silêncio,
Por isso eu te espero
Te quero e te penso.

Como uma ilha,


Sozinha...


PEDRO ABRUNHOSA

18 de Setembro de 2009

SOU UM EVADIDO poema de Fernando Pessoa



Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.



FERNANDO PESSOA

15 de Setembro de 2009

Se Tanto Me Dói que as Coisas Passem.....poema de Sophia de Mello Breyner Andersem





Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

Sophia de Mello Breyner Andresen

5 de Setembro de 2009

OS AMIGOS poema de Eugénio de Andrade




Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.


EUGÉNIO DE ANDRADE
"Coração do Dia"

2 de Setembro de 2009

SELO DOURADO




Recebi do Blog "

  • PALAVRAS & OUTRAS COISAS MAIS
  • " o * Selo Dourado *,
    o que me deixou muito honrada, daí que faço questão de o passar a outros blogs, conforme me indicou a minha querida Méi@, autora do dito blog.

    Assim, nomeio alguns dos blogs , ja que não posso nomear TODOS.

    Obrigada MÉI@.


  • UM POEMA de Vitor Cintra


  • BELEZAS MARIENSES - Solmariense


  • PRAZER, ALEXANDRE !!! -


  • SEMPRE JOVENS


  • SIDAdania Lusófona


  • DIÁRIO DE UMA FOFINHA


  • TEMPO JANELA


  • ÁFRICA EM POESIA


  • ...MORE THAN WORDS


  • UM VENTO NA ILHA


  • UMA PÁGINA PARA DOIS


  • FERNANDA & POEMAS


  • LUA DOS AÇORES


  • DE PROPÓSITO


  • SANTA MARIA
  • 31 de Agosto de 2009

    INTIMIDADE poema de VITOR CINTRA





    Teu corpo, poema ardente.

    Frenética rima de ais,

    Aurora, pedindo mais,

    Com louco vigor, fremente.
    Teu rosto, sorriso aberto,

    Promessa, sonho, desejo,

    Tornando-se a cada beijo

    Tão quente, quanto tão certo.
    E o dia feito uma hora,

    Por entre os ais e os gemidos,

    Festim, sem par, dos sentidos.
    Mas, quando te vais embora,

    Só fica o teu cheiro, intenso,

    Enchendo o vazio imenso


    VITOR CINTRA
    Do novo livro " PEDAÇOS DO MEU SENTIR "

    À venda nas livrarias, consulte:
  • Editora Temas Originais
  • 22 de Agosto de 2009

    POEMA de Sophia de Mello Breyner Anderson



    A minha vida é o mar o Abril a rua
    O meu interior é uma atenção voltada para fora
    O meu viver escuta
    A frase que de coisa em coisa silabada
    Grava no espaço e no tempo a sua escrita
    Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
    Sabendo que o real o mostrará
    Não tenho explicações
    Olho e confronto
    E por método é nu meu pensamento
    A terra o sol o vento o mar
    São a minha biografia e são meu rosto
    Por isso não me peçam cartão de identidade
    Pois nenhum outro senão o mundo tenho
    Não me peçam opiniões nem entrevistas
    Não me perguntem datas nem moradas
    De tudo quanto vejo me acrescento
    E a hora da minha morte aflora lentamente
    Cada dia preparada



    Sophia de Mello Breyner Andresen

    19 de Agosto de 2009

    JEITO DE SER poema de Gracinda Medeiros



    JEITO DE SER

    Abraço o mundo
    com olhos
    de sentir
    e de tocar
    enquanto
    as mãos
    ficam livres
    para o fazer
    e para o distribuir.

    Vejo a vida
    com braços
    de acolher
    e de libertar
    enquanto
    os pés
    seguem trilhas
    de perder
    e de encontrar.

    E assim,
    abraçando tudo que vejo,
    posso sentir tudo que faço,
    acolher tudo que encontro
    e libertar tudo que perco

    Gracinda Medeiros

    16 de Agosto de 2009

    Letras das músicas que inspiram o meu blog



    VOCÊ NÃO SABE

    Você não sabe quanta coisa eu faria,
    Além do que já fiz.
    Você não sabe até onde eu chegaria,
    Pra te fazer feliz.

    Eu chegaria,
    Onde só chegam os pensamentos,
    Encontraria, uma palavra que não existe,
    Pra te dizer, nesse meu verso quase triste,
    Como é grande o meu amor.

    Você não sabe, que os anseios do seu coração,
    São muito mais pra mim,
    Do que as razões que eu tenha,
    Pra dizer que não...
    E eu sempre digo, sim!

    E ainda que, a realidade me limite,
    A fantasia dos meus sonhos, me permite,
    Que eu faça mais, do que as loucuras
    Que já fiz, pra te fazer feliz.

    Você só sabe,
    Que eu te amo tanto,
    Mas na verdade
    Meu amor, não sabe o quanto,
    E se soubesse, iria compreender,
    Razões que só quem ama assim, pode entender.

    Você não sabe, quanta coisa eu faria,
    Por um sorriso seu.
    Você não sabe,
    Até onde chegaria,
    Amor igual ao meu .

    Mas se preciso for,
    Eu faço muito mais,
    Mesmo que eu sofra,
    Ainda assim eu sou capaz,
    De muito mais...
    Do que as loucuras que já fiz,
    Pra te fazer feliz!


    Erasmo Carlos e Roberto Carlos


    **********************


    O MEU AMOR EXISTE


    O meu amor tem lábios de silêncio,
    E mãos de bailarina...
    E voa como o vento,
    E abraça-me, onde a solidão termina.

    O meu amor tem trinta mil cavalos,
    A galopar no peito...
    E um sorriso só dela,
    Que nasce, quando a seu lado eu me deito.

    O meu amor, ensinou-me a chegar,
    Sedento de ternura,
    Sarou as minhas feridas,
    E pôs-me a salvo, para além da loucura.

    O meu amor, ensinou-me a partir...
    Nalguma noite triste,
    Mas antes, ensinou-me...
    A não esquecer, que o meu amor existe!

    JORGE PALMA

    **********************



    ESTRELA DO MAR
    de Jorge Palma

    Numa noite em que o céu, tinha um brilho mais forte,
    e em que o sono parecia, disposto a não vir.
    fui estender-me na praia, sozinho ao relento,
    e ali longe do tempo, acabei por dormir.

    Acordei com o toque, suave de um beijo...
    e uma cara sardenta, encheu-me o olhar,
    ainda meio a sonhar, perguntei-lhe quem era,
    ela riu-se e disse baixinho: estrela do mar

    Sou a estrela do mar...
    só a ele obedeço, só ele me conhece,
    só ele sabe quem sou, no princípio e no fim,
    só a ele sou fiel, e é ele quem me protege,
    quando alguém quer à força,
    ser dono de mim.

    Não sei se era maior, o desejo ou o espanto,
    só sei que por instantes, deixei de pensar...
    uma chama invisível, incendiou-me o peito,
    qualquer coisa impossível, fez-me acreditar.

    Em silêncio trocámos, segredos e abraços,
    inscrevemos no espaço, um novo alfabeto,
    já passaram mil anos, sobre o nosso encontro,
    mas mil anos são pouco ou nada, para a estrela do mar...

    JORGE PALMA

    14 de Agosto de 2009

    AMOR e SONO poema de Algernon Charles Swinburne





    Deitado a dormir entre os afagos da noite
    Vi o meu amor debruçar-se sobre o meu leito,
    Pálida como a mais escura folha do lírio ou corola
    De pele macia e escura,
    o pescoço nu para ser mordido,
    *
    Transparente de mais para corar,
    tão quente para ser branca,
    Apenas de uma cor perfeita sem branco nem vermelho.
    E os lábios abriram-se-lhe amorosamente e disseram -
    Nem sei bem o quê, excepto uma palavra -Deleite.
    *
    E a face dela era toda mel na minha boca,
    E o corpo dela todo pasto a meus olhos;
    Os braços longos e lentos,
    as mãos quentes de fogo,
    *
    As ancas frementes,
    o cabelo a cheirar a Sul,
    os pés leves luzentes,
    as coxas esplêndidas e dóceis
    E as pálpebras fulgentes
    com o desejo da minha alma.


    Charles SwinburneLondres, 1837


    Trad. Helena Barras
    do livro * Rosa dos Ventos *

    13 de Agosto de 2009

    Aperta-me Junto de Ti....poema de Rui Ressurreição




    Aperta-me junto de ti,
    Quero o teu calor, o teu amor.
    Este sentimento de pertença,
    Este divino laço de ternura,
    Que nos ligará, para toda a eternidade.

    Continuarei a ser quem sou, eu mesmo,
    Aberto à vida, aberto ao mundo,
    Transparente ao meu destino,
    Com a música dentro do meu ser,
    A me fazer viver, no mais alto dos céus.

    Olha-me nos olhos
    Que vês dentro de mim?
    Gostas de mim? Do meu ser?

    Sinto que queres a minha companhia,
    Para junto vivermos em alegria,
    Descobrir o oceano do amor,
    Mesmo dentro da nossa dor,
    Percorrendo esse caminho, menos percorrido,
    Nas esferas do nosso destino.

    Quero pular e saltar,
    Amar sem limites...
    Sem fronteiras ou barreiras,
    Acreditar no teu amor,
    No teu calor...
    Que evapora os meus desejos,
    Condensando num ponto de eternidade,

    Um grito de alma,
    Que chama por socorro,
    Dentro dos seus mistérios...
    Dentro de seu labirinto...
    De vida, da sua alma querida !



    RUI RESSURREIÇÃO

    11 de Agosto de 2009

    AMARRAS...poema de Rui Ressurreição




    Já não sei o que sou,
    Já não sei para onde vou.
    Estas amarras que me prendem,
    a um destino sem amor...
    Em que me roubam o meu interior,
    Em que me afagam o ego,
    E matam o meu ser.
    Eu deixo,
    E eu sinto;
    Carências...
    Existências, por viver...
    Tristeza,
    Solidão,
    Ingratidão.
    Aqui estou eu a chorar,
    Sem amar,
    Sem viver,
    Mas com vontade de morrer!


    RUI RESSURREIÇÃO

    9 de Agosto de 2009

    QUEM ÉS?... poema de Ângelo Gomes




    És o sonho que se vislumbra ao longe
    O mosteiro secreto onde habita o monge
    A árida planície que é dura... que é mole,
    Conforme as chuvas te fustiguem ou não...
    És o som das palavras que me dão vida
    O trautear da canção de urânio enriquecida...
    Quem és tu? Serás a lua? Serás o sol?
    Ou serás um enclave no meu coração?



    Ângelo Gomes

    5 de Agosto de 2009

    O CASAMENTO poema de Willem Elsschot ( Bélgica)



    Quando ele descobriu como a névoa do tempo
    nos olhos da mulher faúlhas apagara,
    as faces submergira, a testa lhe sulcara,
    afastou o olhar, tomado de tormento.

    Maldisse em furor e a barba arrancaria,
    co'os olhos a mediu, mas nada pra excitar,
    e essa infância ele viu em danação mudar,
    enquanto o olhava ela, cavalo que morria.

    Mas morrer não morreu, e bem ele tentou
    sugar o imo à ossada que firme a sustentava.
    Não mais ela falou, queixar-se não ousava,
    tremia que era um dó, mas curada ficou.
    Pensou: dou cabo dela e puxo fogo à casa.
    Arranco o estrado fungo que os pés me entorpeceu.
    E como quem por vaus e por fogo correu
    alhures acharei o amor que tanto abrasa.

    Mas matar não matou, porque entre sonho e agir
    atravessam-se leis e mais triviais questões,
    e até melancolia, pra a qual faltam razões,
    e que à noite acomete, quando se vai dormir.

    Os miúdos cresceram, com os anos a correr,
    e viram que o sujeito a quem chamavam pai
    quieto ao pé do lume e sem dizer um ai
    punha um ar tenebroso e horrendo de se ver.
    Willem Elsschot


    3 de Agosto de 2009

    " Desejo " poema de VITOR HUGO





    Desejo primeiro que você ame,
    E que amando, também seja amado.
    E que se não for, seja breve em esquecer.
    E que esquecendo, não guarde mágoa.
    Desejo, pois, que não seja assim,
    Mas se for, saiba ser sem desesperar.

    Desejo também que tenha amigos,
    Que mesmo maus e inconseqüentes,
    Sejam corajosos e fiéis,
    E que pelo menos num deles
    Você possa confiar sem duvidar.
    E porque a vida é assim,
    Desejo ainda que você tenha inimigos.
    Nem muitos, nem poucos,
    Mas na medida exata para que, algumas vezes,
    Você se interpele a respeito
    De suas próprias certezas.
    E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
    Para que você não se sinta demasiado seguro.

    Desejo depois que você seja útil,
    Mas não insubstituível.
    E que nos maus momentos,
    Quando não restar mais nada,
    Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

    Desejo ainda que você seja tolerante,
    Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
    Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
    E que fazendo bom uso dessa tolerância,
    Você sirva de exemplo aos outros.

    Desejo que você, sendo jovem,
    Não amadureça depressa demais,
    E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
    E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
    Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
    É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

    Desejo por sinal que você seja triste,
    Não o ano todo, mas apenas um dia.
    Mas que nesse dia descubra
    Que o riso diário é bom,
    O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

    Desejo que você descubra ,
    Com o máximo de urgência,
    Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
    Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

    Desejo ainda que você afague um gato,
    Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
    Erguer triunfante o seu canto matinal
    Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

    Desejo também que você plante uma semente,
    Por mais minúscula que seja,
    E acompanhe o seu crescimento,
    Para que você saiba de quantas
    Muitas vidas é feita uma árvore.

    Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
    Porque é preciso ser prático.
    E que pelo menos uma vez por ano
    Coloque um pouco dele
    Na sua frente e diga "Isso é meu",
    Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

    Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
    Por ele e por você,
    Mas que se morrer, você possa chorar
    Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

    Desejo por fim que você sendo homem,
    Tenha uma boa mulher,
    E que sendo mulher,
    Tenha um bom homem
    E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
    E quando estiverem exaustos e sorridentes,
    Ainda haja amor para recomeçar.
    E se tudo isso acontecer,
    Não tenho mais nada a te desejar ".

    1 de Agosto de 2009

    Memória poema de Cecília Meireles

    Dedico á minha MÃE, onde quer que esteja, hoje dia do seu aniversário.
    COM SAUDADES




    Tão longe, a minha família!
    Tão dividida em pedaços!
    Um pedaço em cada parte...
    Pelas esquinas do tempo,
    brincam meus irmãos antigos:
    uns anjos, outros palhaços...
    Seus vultos de labareda
    rompem-se como retratos
    feitos em papel de seda.
    Vejo lábios, vejo braços
    - por um momento persigo-os;
    de repente, os mais exatos
    perdem sua exatidão.
    Se falo, nada responde.
    Depois, tudo vira vento
    e nem o meu pensamento
    pode compreender por onde
    passaram nem onde estão.



    CECÍLIA MEIRELES

    28 de Julho de 2009

    A BOCA poema de Umberto Saba ( Itália )




    A boca
    que primeiro levou
    aos meus lábios a cor da aurora
    ainda
    em belos pensamentos desconto o aroma.

    Ó pueril boca, amada boca,
    que dizias o que ousavas e tão doce
    eras a beijar.


    Tradução de Eugénio de Andrade

    24 de Julho de 2009

    Eu Não Sou de Ninguém.... poema de FLORBELA ESPANCA




    Eu não sou de ninguém!... Quem me quiser
    Há-de ser luz do Sol em tardes quentes;
    Nos olhos de água clara há-de trazer
    As fúlgidas pupilas dos videntes!

    Há-de ser seiva no botão repleto,
    Voz no murmúrio do pequeno insecto,
    Vento que enfurna as velas sobre os mastros!...

    Há-de ser Outro e Outro num momento!
    Força viva, brutal, em movimento,
    Astro arrastando catadupas de astros!



    Florbela Espanca

    22 de Julho de 2009

    Poema de Ângelo de Lima





    Pára-me de repente o pensamento
    Como que de repente refreado
    Na doida correria em que levado
    Ia em busca da paz do esquecimento.

    Pára surpreso, escrutador, atento,
    Como pára um cavalo alucinado
    Ante um abismo súbito rasgado,
    Pára e fica, e demora-se um momento.


    Pára e fica, na doida correria.
    Pára à beira do abismo, e se demora.
    E mergulha na noite escura e fria

    Um olhar de aço, que essa noite explora.
    Mas a espora da dor seu flanco estria,
    E ele galga e prossegue sob a espora...



    Ângelo de Lima

    13 de Julho de 2009

    A Mulher Que Passa poema de Vinicius de Moraes




    A mulher que passa


    Meu Deus, eu quero a mulher que passa
    Seu dorso frio é um campo de lírios
    Tem sete cores nos seus cabelos
    Sete esperanças na boca fresca!
    Oh! como és linda, mulher que passas
    Que me sacias e suplicias
    Dentro das noites, dentro dos dias!



    Teus sentimentos são poesia
    Teus sofrimentos, melancolia.
    Teus pelos leves são relva boa
    Fresca e macia.
    Teus belos braços são cisnes mansos
    Longe das vozes da ventania.



    Meu Deus, eu quero a mulher que passa!



    Como te adoro, mulher que passas
    Que vens e passas, que me sacias
    Dentro das noites, dentro dos dias!
    Por que me faltas, se te procuro?
    Por que me odeias quando te juro
    Que te perdia se me encontravas
    E me concontrava se te perdias?



    Por que não voltas, mulher que passas?
    Por que não enches a minha vida?
    Por que não voltas, mulher querida
    Sempre perdida, nunca encontrada?
    Por que não voltas à minha vida
    Para o que sofro não ser desgraça?



    Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
    Eu quero-a agora, sem mais demora
    A minha amada mulher que passa!



    Que fica e passa, que pacífica
    Que é tanto pura como devassa
    Que bóia leve como a cortiça
    E tem raízes como a fumaça.


    Vinícius de Moraes

    11 de Julho de 2009

    O poema da " MENTE " desconheço o autor




    O POEMA DA 'MENTE'

    Há um primeiro-ministro que mente.
    Mente de corpo e alma, completamente.
    E mente de maneira tão pungente
    Que a gente acha que ele mente sinceramente.
    Mas que mente, sobretudo, impunemente...
    Indecentemente... mente.
    E mente tão racionalmente,
    Que acha que mentindo vida fora,
    Nos vai enganar eternamente.


    Desconheço o autor , mas achei bastante divertido, e por isso, partilho aqui a brincadeira.

    9 de Julho de 2009

    * ALMA MINHA GENTIL QUE PARTISTE * Luis Vaz de Camões




    Alma minha gentil, que te partiste
    Tão cedo desta vida, descontente,
    Repousa lá no Céu eternamente
    E viva eu cá na terra sempre triste.

    Se lá no assento etéreo, onde subiste,
    Memória desta vida se consente,
    Não te esqueças daquele amor ardente
    Que já nos olhos meus tão puro viste.

    E se vires que pode merecer-te
    Alguma cousa a dor que me ficou
    Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

    Roga a Deus, que teus anos encurtou,
    Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
    Quão cedo de meus olhos te levou.


    Luis Camões

    3 de Julho de 2009

    Não sei Nada....poema de Ilda Silva Lisboa




    NÃO SEI NADA


    Não sei se chore se ria, desta vida de amargura;
    Rir talvez faça um dia, choro em qualquer altura.

    Não sei se escreva se pense, no que será melhor para mim;
    Escrever talvez compense, pensar seria sem fim.

    Não sei se pare ou caminhe, sobre o traço que me impus;
    Se caminhar talvez definhe, parar também não seduz.

    Não sei se fale se grite, tudo o que me vai na alma;
    Falar talvez agite, gritar talvez traga calma.

    Não sei se vença a doença, ou por ela me deixe vencer;
    Sinto que me falta crença e tenho pouco a perder.

    Não sei se sofra se morra, sinto não haver opção;
    Se para o abismo corra, ou me encerre em prisão.

    Já não sei se trave a tempo, ou da falésia resvale;
    Só saberei no momento em que a brisa do mar me cale.

    Nunca soube o que fazer, sempre andei à deriva;
    Eu só queria enfim morrer, os outros querem que viva
    .


    Ilda Silva Lisboa
    19/5/2009

    1 de Julho de 2009

    Que noite serena !.....Àlvaro de Campos heterónimo de Fernando Pessoa




    Que noite serena!
    Que lindo luar!
    Que linda barquinha
    Bailando no mar!

    Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
    O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
    Sossego de várias espécies,
    A infância sem futuro pensado,
    O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
    E tudo bom e a horas,
    De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.

    Meu Deus, que fiz eu da vida?

    Que noite serena, etc.

    Quem é que cantava isso?
    Isso estava lá.
    Lembro-me mas esqueço.
    E dói, dói, dói...

    Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.


    Álvaro de Campos, in "Poemas"
    Heterónimo de Fernando Pessoa

    29 de Junho de 2009

    Entrar em Ti...
    de RUI RESSURREIÇÃO



    Ao meu amigo e poeta RUI RESSURREIÇÃO que hoje está de parabéns.

    Desejando um dia feliz, que se repita pelos restantes 364 dias do ano, deixo um beijo com muita amizade e carinho, e votos de felicidades.


    PARABÉNS RUI, publico aqui um dos teus poemas





    Por vezes é difícil entender a tua maneira de ser
    conhecer o teu interior
    a tua dor
    o que te move por amor.
    Que fazes tu no monte das ilusões
    essas sensações de sair fora de ti
    para longínquos universos
    para outras paragens
    em busca de novas miragens
    em que te iludes com os conceitos da mente
    que te engana
    que te chama para um território escorregadio
    frio e lamacento
    em que nas suas conexões
    receberás encontrões
    e perderás o rumo da tua vida
    afundando-te nos lagos cerebrais
    e sentindo falta de todos os teus ais
    duma alma desencontrada
    com a tua mais alta morada
    a do amor.


    Rui Ressurreição

    26 de Junho de 2009

    Cântico VI de Cecília Meireles





    Tu tens um medo:
    Acabar.
    Não vês que acaba todo o dia.
    Que morres no amor.
    Na tristeza.
    Na dúvida.
    No desejo.
    Que te renovas todo o dia.
    No amor.
    Na tristeza.
    Na dúvida.
    No desejo.
    Que és sempre outro.
    Que és sempre o mesmo.
    Que morrerás por idades imensas.
    Até não teres medo de morrer.

    E então serás eterno.



    Cecília Meireles

    24 de Junho de 2009

    Temporais..... poema de Ilda Silva Lisboa




    Trovoada sim, trovoada não,
    Trovejas dentro de mim.
    No silêncio dos trovões e na escuridão dos clarões
    invade-me um frio nordestino,
    rebelião vespertina que esgota o ar dos pulmões.



    Tempestade sim, tempestade não,
    cintilam as estrelas;
    Muitas daquelas que apontei até os dedos cravejar.


    São temporais de ida e volta
    que o são para não mais voltar.



    Ilda Silva Lisboa

    21/2/2009

    21 de Junho de 2009

    Em Silêncio de VERA SOUSA SILVA




    Deixa-me amar-te assim... em silêncio...

    Não me peças palavras que não sei pronunciar, nem gestos que nunca fiz. Não sei tanto do que queria e quero tanto do que não sei.
    Olhas-me e perco o norte. Fico muda e desvio o olhar. Não é por não te amar, mas sim por esse amor ser grande demais. Mas em silêncio...
    Seria tão fácil dizer que te amo e perder-te. Seria tão simples dançar ao som da ilusão e entregar-me completa, plácida, serena, e acrescentar apenas as letras que faltam quando não digo “Amo-te”!
    Não me peças para ser o que não sou, nem para me transformar subitamente em mulher, porque sou apenas menina.
    Queria crescer nos teus braços fortes e esconder-me atrás do teu tronco másculo. Mas abraço-te... em silêncio.
    Desejo o suave toque acetinado dos teus lábios nos meus e imagino como será um beijo de verdade. Anseio por ele e sonho-o.. em silêncio.
    Aproveito-me do que tenho de melhor e sonho... Nos meus sonhos eu sou tua e tu... Tu, meu amor, pertences-me! Todos os dias nos amamos intensamente e somos apenas um do outro! Todos os segundos das minhas noites são aproveitados ao máximo e vividos energicamente, ardentemente, gloriosamente... Chega a manhã e a realidade!
    Não me peças palavras que não sei dizer e deixa-me! Deixa-me amar-te assim... em silêncio...


    Vera Sousa Silva

    13 de Junho de 2009

    Brilho de Sol Tal poema de Ilda Silva Lisboa





    BRILHO DE SOL TAL


    Oh brisa salgada que vens das profundezas do mar,
    Meus lábios te esperam sedentos,
    A minha boca permanece amarrada...
    Nos meus olhos não há olhar.


    Oh como passa gelado o vento da distância,
    Passa calado,
    Cala um lamento,
    Disfarça importância.


    Cada vaga ao chegar, trás em si uma mensagem;
    Carta que afaga,
    Afago ao luar,
    Frases de coragem


    Mas de manhã, cada raio do sol nascente,
    É como um gomo de romã,
    Um boquet de flores de Maio,
    Um abraço que se sente...


    E não há nuvens que ocultem o brilho de um sol tal
    Nem há esquemas que resultem,
    Nem armadilhas no trilho,
    Nem ameaça fatal


    À medida que o sol se ergue
    E os seus raios me aquecem
    Meu sangue quase ferve
    Com momentos que não esquecem




    Ilda Silva Lisboa

    9 de Junho de 2009

    Tempo..... poema de Isabel Valente



    Eu quero agarrar o tempo,
    Que corre veloz e não cansa.
    Mas o tempo, tem todo o tempo,
    Corre, corre, atrás do vento,
    Numa corrida sem esperança.

    Queria contar os grãos de areia,
    Que tenho na palma da mão.
    E neste querer impossível,
    Espalha o vento invisível,
    O tempo que me resta, pelo chão.

    Assim, é para cada um, a sorte...
    Que se trás no destino, ao nascer,
    Por muito que tente, lute e se esforce,
    Ore e implore, para que a sorte volte,
    Esta não muda, só por se querer.



    2009.06.08
    Isabel Valente

    8 de Junho de 2009

    CANÇÃO...poema de Eugenio Florit ( Cuba)




    Eco de um sonho que na noite busco
    torcendo o frio gris do pensamento.
    É tarde já para olhar estrelas
    e tenho frio.

    Talvez não saiba quando irei olhar-te.
    preso à alma de tua grata lembrança
    que está a gritar-me lá do sonho
    um nome tépido.


    Um nome que há-de ser como são as rosas,
    doce e fragrante prémio para os lábios;
    mais sereno que minha amargura
    sem esperança.

    Assim verei, na orla destes mares,
    para alegrar minhas altas gaivotas,
    umas letras unidas ao reflexo
    do seu olhar.


    Trad: José Bento.


    do Livro " Rosa do Mundo "

    6 de Junho de 2009

    Esperança..... poema de JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO




    Se eu conseguisse viver este dia,
    O dia que hoje passa,
    Como se fosse o último da minha vida...
    Esmagando ressentimentos,
    Aleijando-me de toda a podridão
    Que me aniquila a Graça,
    Que me enegrece a alma
    E enluta o coração...


    Ai, se eu pudesse suster
    Os passos incertos,
    No caminho errado,
    Do meu viver !
    E ao passado não voltar,
    E saber esquecer,
    Esquecer e perdoar ! ...


    Se conseguisse reter
    A lágrima que teima,
    Dolorida,
    Soltar-se dos olhos vidrados,
    E que teima
    Os rostos enrugados
    Dos vencidos da vida ...


    Se eu pudesse evadir-me
    Deste negro cárcere,
    Desta dura e fria prisão
    Onde, há muito, vivo
    Abandonado,
    Cativo,
    Nos braços da solidão...


    Se eu conseguisse viver
    Só dentro de ti,
    E tu, bem dentro de mim,
    Mas sem ninguém entender
    O nosso viver assim ...


    Isolado, neste mundo,
    Onde a amargura se esconde,
    Alimentando uma esperança
    Que virá, não sei bem donde ...
    - Do horizonte ? Do céu? Do mar?
    ... Na chama do amor vivendo,
    O coração não se cansa,
    Não se cansa de esperar! ...



    JOSÉ MARIA LOPES DE ARAUJO

    do livro " Outono da Vida "

    1 de Junho de 2009

    MENINO DE ROSTO SUJO....peoma de José Maria Lopes de Araújo






    A ti, menino de ninguém

    Sem norte era teu caminho,
    Jornada de mágoa e dor ...
    Tinhas sede de carinho ...
    Trazias fome de amor !

    De rosto sujo, menino ...
    Como é negro o teu destino !

    A lágrima que rolava
    No teu rosto macerado,
    Amargamente falava
    De um tormentoso passado ...

    Um passado curto ainda
    Tão tristemente marcado ...
    A este mundo, tua vinda
    Foi o fruto do pecado !

    Dum pecado que persiste
    A marcar a tua vida ...
    Uma esperança tão triste
    Feita de esperança perdida !

    Como é negro o teu destino !
    De olhos molhados, menino ...

    É que não ter o calor
    De mãe, de pai ou de alguém,
    É viver-se sem amor ,
    Sem carinho de ninguém !

    No rosto sujo teus olhos
    Que trazem tanta amargura,
    Mostram bem teu mar de escolhos,
    Menino órfão de ventura !

    De olhos molhados, menino ...
    Como é triste o teu destino !





    ****************

    JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

    do livro " Outono da Vida "

    29 de Maio de 2009

    FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA - do livro " MAR BRANCO "





    NO TEU CORPO QUENTE


    Regressei ao horizonte
    no teu corpo quente

    Penetrei o meu ser
    no teu ser ansioso

    És o tudo…sou o tudo…
    És o nada, também

    Toquei no teto-universo…
    e encontrei-me em ti

    Já posso partir
    para o horizonte

    Para o meu gene perdido
    Que sou eu

    Tive o tudo
    tenho o nada
    Sou só …. o regressado

    Vivo suspenso do teu corpo quente
    Vivo suspenso no teu corpo quente
    Vivo suspenso no teu corpo quente.



    Fernando Monteiro da Câmara Pereira - Dez.1980

    (Um açoriano nascido Mariense )

    27 de Maio de 2009

    * Quero Acabar Entre Rosas ... * poema de Álvaro de Campos




    Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
    Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.
    Falem pouco, devagar.
    Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
    O que quis? Tenho as mãos vazias,
    Crispadas febrilmente sobre a colcha longínqua.
    O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta.
    O que vivi? Era tão bom dormir!



    Álvaro de Campos, in "Poemas"
    Heterónimo de Fernando Pessoa

    26 de Maio de 2009

    * Femina * de Soares Feitosa




    Não lavei os seios
    pois tinham o calor
    da tua mão.

    Não lavei as mãos
    pois tinham os sons
    do teu corpo.


    Não lavei o corpo
    pois tinha os rastos
    dos teus gestos;
    tinha também, o meu corpo,
    a sagrada profanação
    do teu olhar
    que não lavei.


    Nem aqueles lençóis,
    não os lavei,
    nem os espelhos,
    que continuam
    onde sempre estiveram:
    porque eles nos viram
    cúmplices, e a paixão,
    no paraíso,
    parece que era.


    Lavei, sim,
    lavei e perfumei
    a alma, em jasmim,
    que é tua, só tua,
    para te esperar
    como se nunca tivesses ido
    a nenhum lugar:
    donde apaguei
    todas as ausências
    que apaguei
    ao teu olhar.



    SOARES FEITOSA

    25 de Maio de 2009

    Desperta, Amor....poema de JOSÉ MARIA LOPES DE ARAUJO





    DESPERTA, AMOR


    São teus meus versos, versos que escrevi,
    À luz da Lua, em noites estivais,
    A reviver as horas que vivi …
    Sonhos de amor que não voltaram mais.

    Rolaram meses, anos, na voragem
    Do tempo que já tudo destroçou …
    Somente, emoldurada, a tua imagem,
    Dentro em minha alma, estática, ficou!

    Por que não vens, mulher, por que não vens
    Dizer-me que me queres tanto, enfim,
    Como então me querias, se ainda tens
    O coração a palpitar por mim?

    Por que motivo tentas esconder,
    No olhar furtivo, o amor que te atormenta?
    Não turves a alegria de viver,
    Que, assim, da própria vida se afugenta?

    E dá-me as tuas mãos, as mãos que, um dia,
    Afagaram meu rosto, ternamente …
    Desperta, amor, que a vida é agonia
    Dos céleres minutos do presente! …




    José Maria Lopes de Araújo

    do livro

    REMOS PARTIDOS

    21 de Maio de 2009

    CADA COISA ....poema de Ricardo Reis (Fernando Pessoa)







    Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
    Não florescem no inverno os arvoredos,
    Nem pela primavera
    Têm branco frio os campos.


    À noite, que entra, não pertence, Lídia,
    O mesmo ardor que o dia nos pedia.
    Com mais sossego amemos
    A nossa incerta vida.


    À lareira, cansados não da obra
    Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
    Não puxemos a voz
    Acima de um segredo,


    E casuais, interrompidas, sejam
    Nossas palavras de reminiscência
    (Não para mais nos serve
    A negra ida do Sol) —


    Pouco a pouco o passado recordemos
    E as histórias contadas no passado
    Agora duas vezes
    Histórias, que nos falem


    Das flores que na nossa infância ida
    Com outra consciência nós colhíamos
    E sob uma outra espécie
    De olhar lançado ao mundo.


    E assim, Lídia, à lareira, como estando,
    Deuses lares, ali na eternidade,
    Como quem compõe roupas
    O outrora compúnhamos


    Nesse desassossego que o descanso
    Nos traz às vidas quando só pensamos
    Naquilo que já fomos,
    E há só noite lá fora.


    * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *


    ÁLVARO DE CAMPOS ( Fernando Pessoa )

    19 de Maio de 2009

    SINTO poema de Vitor Cintra








    Sinto crescer a vontade
    De perceber se o que dizes,
    Entre risadas felizes,
    É ou não é a verdade,
    Ou só disfarça deslizes.

    Sinto crescer o desejo
    De te cingir nos meus braços,
    P'ra te prender com abraços,
    E arrancar-te num beijo
    Todos os teus embraraços.

    Sinto crescer a ideia
    De que, bem mais do que mostras,
    São bem reais as propostas
    Duma visão que incendeia
    Esse viver, de que gostas.





    VITOR CINTRA

    Do Livro " Pedaços do Meu Sentir"

    Á venda nas livrarias

    CREPUSCULO de Ilda Silva Lisboa





    CREPÚSCULO


    Ao crepúsculo do dia que termina
    Sucede, inevitavelmente, a alvorada,
    Mostrando que a noite não existe.
    Um clarão que surge e alucina,
    Que oxalá não tenha medo de nada
    E que a todos os infortúnios resiste.

    Ao sol que se põe de um lado,
    Outro lhe aparece oposto,
    Como se dois sóis tivesse o mundo.
    O que se põe está cansado,
    Mas guarda para si o gosto.
    O que aparece é fecundo.

    O que se põe está doente,
    Mergulha na noite densa,
    Parte sem esperança, enfim!
    O que desponta reluzente,
    Cheio de vontade imensa,
    Não vendo do outro o seu fim.


    Ilda Silva Lisboa

    18 de Maio de 2009

    AMOR QUE MORRE poema de FLORBELA ESPANCA





    O nosso amor morreu... Quem o diria?
    Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
    Ceguinha de te ver, sem ver a conta
    Do tempo que passava, que fugia!

    Bem estava a sentir que ele morria...
    E outro clarão, ao longe, já desponta!
    Um engano que morre... e logo aponta
    A luz doutra miragem fugidia...

    Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
    São precisos amores, pra morrer,
    E são precisos sonhos pra partir.

    E bem sei, meu Amor, que era preciso
    Fazer do amor que parte o claro riso
    De que outro amor impossível que há-de vir!

    FLORBELA ESPANCA

    A RUA DOS CATAVENTOS de Mário Quintana




    Da vez primeira em que me assassinaram,
    Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
    Depois, a cada vez que me mataram,
    Foram levando qualquer coisa minha.

    Hoje, dos meu cadáveres eu sou
    O mais desnudo, o que não tem mais nada.
    Arde um toco de Vela amarelada,
    Como único bem que me ficou.

    Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
    Pois dessa mão avaramente adunca
    Não haverão de arracar a luz sagrada!

    Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
    Que a luz trêmula e triste como um ai,
    A luz de um morto não se apaga nunca!



    Mario Quintana

    17 de Maio de 2009

    O AMOR poema de FERNANDO PESSOA



    O Amor

    O amor, quando se revela,
    Não se sabe revelar.
    Sabe bem olhar p'ra ela,
    Mas não lhe sabe falar.

    Quem quer dizer o que sente
    Não sabe o que há de *dizer.
    Fala: parece que mente
    Cala: parece esquecer

    Ah, mas se ela adivinhasse,
    Se pudesse ouvir o olhar,
    E se um olhar lhe bastasse
    Pr'a saber que a estão a amar!

    Mas quem sente muito, cala;
    Quem quer dizer quanto sente
    Fica sem alma nem fala,
    Fica só, inteiramente!

    Mas se isto puder contar-lhe
    O que não lhe ouso contar,
    Já não terei que falar-lhe
    Porque lhe estou a falar..


    Fernando Pessoa

    15 de Maio de 2009

    Mas...... de Ilda Silva Lisboa




    Mas...
    o pensamento sangra
    lágrima escondida
    e o coração sempre lembra imenso.
    Assim, a beleza da história julgada perdida,
    permanece na sala, com aroma intenso.



    Ilda Silva Lisboa

    " PEDAÇOS DO MEU SENTIR "
    lançamento do livro de
    VITOR CINTRA



    No próximo dia 16 de Maio, às 19,00 horas, no Auditório - Campo Grande nº 56, em Lisboa - será a apresentação deste novo livro de poemas, publicado sob a chancela da editora «Temas Originais, Lda».
    O livro, em cuja capa se reproduz uma tela da pintora Alvani Borges, tem Prefácio do poeta António Paiva e será apresentado pelo poeta Xavier Zarco.

    14 de Maio de 2009

    O QUE HÁ ...de Álvaro de Campos



    O que há

    O que há em mim é sobretudo cansaço —
    Não disto nem daquilo,
    Nem sequer de tudo ou de nada:
    Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
    Cansaço.

    A subtileza das sensações inúteis,
    As paixões violentas por coisa nenhuma,
    Os amores intensos por o suposto em alguém,
    Essas coisas todas —
    Essas e o que falta nelas eternamente —;
    Tudo isso faz um cansaço,
    Este cansaço,
    Cansaço.

    Há sem dúvida quem ame o infinito,
    Há sem dúvida quem deseje o impossível,
    Há sem dúvida quem não queira nada —
    Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
    Porque eu amo infinitamente o finito,
    Porque eu desejo impossivelmente o possível,
    Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
    Ou até se não puder ser...

    E o resultado?
    Para eles a vida vivida ou sonhada,
    Para eles o sonho sonhado ou vivido,
    Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
    Para mim só um grande, um profundo,
    E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
    Um supremíssimo cansaço,
    Íssimo, íssimo, íssimo,
    Cansaço...




    Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

    12 de Maio de 2009

    DOR DA SOLIDÃO de Antonio Manoel Abreu Sardenberg





    Não existe dor maior
    Que a dor da solidão...
    É dor cruel e perversa
    Que não aceita conversa
    E nem mesmo explicação!
    É dor do só, do sozinho,
    É carência de carinho,
    Seu sintoma é a paixão.


    E essa dor tão doída
    Que tanto maltrata a gente
    Chega assim tão de repente
    Sem sequer bater na porta.
    Para ela pouco importa
    Se está matando o doente,
    Se a "Inês é quase morta".


    É uma dor que aniquila,
    Que castiga, que maltrata,
    É mais forte que a tequila
    Mais ardente que a cachaça.
    É pior que a dor que tomba,
    Mais cruel que a dor que mata.



    Antonio Manoel Abreu Sardenberg

    11 de Maio de 2009

    SIMULTANEIDADE de Mário Quintana





    - Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
    - Você é louco?
    - Não, sou poeta.


    Mario Quintana

    7 de Maio de 2009

    Ai de Quem Ama ....poema de Vinicius de Moraes





    Quanta tristeza
    Há nesta vida
    Só incerteza
    Só despedida

    Amar é triste
    O que é que existe?
    O amor

    Ama, canta
    Sofre tanta
    Tanta saudade
    Do seu carinho
    Quanta saudade

    Amar sozinho
    Ai de quem ama
    Vive dizendo
    Adeus, adeus

    Vinícius de Moraes

    29 de Abril de 2009

    O Encanto de Teus Olhos... de poema de CIRO DI VERBENA






    O encanto de teus olhos verdes, claros,
    Brilhantes astros sempre reluzentes,
    É tudo o que há de mais valioso e caro
    Que eu posso vislumbrar à minha frente!

    E encanta-me esse brilho intenso e raro,
    Invadindo minha alma, mansamente,
    Toda vez que ao acaso me deparo,
    Com esse teu olhar triste e carente!

    Teu olhar tem a essência do carinho;
    Convida os corações aventureiros
    A sorver desse encanto o puro vinho...

    E esse olhar é um abismo traiçoeiro;
    Cada vez que te encontro em meu caminho
    Nesse olhar eu mergulho, corpo inteiro!...


    Ciro Di Verbena

    26 de Abril de 2009

    ALMA PERDIDA de Florbela Espanca




    Toda esta noite o rouxinol chorou,
    Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
    Alma de rouxinol, alma da gente,
    Tu és, talvez, alguém que se finou!

    Tu és, talvez, um sonho que passou,
    Que se fundiu na Dor, suavemente...
    Talvez sejas a alma, a alma doente
    Dalguém que quis amar e nunca amou!

    Toda a noite choraste... e eu chorei
    Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
    Que ninguém é mais triste do que nós!

    Contaste tanta coisa à noite calma,
    Que eu pensei que tu eras a minh'alma
    Que chorasse perdida em tua voz!...


    Florbela Espanca

    24 de Abril de 2009

    Arrependimento....poema de Josias da Silva




    Se uma angústia voraz me desespera
    E me perco nos caminhos onde ando,
    Imploro teu carinho sempre e quando
    O amor faz em meu corpo primavera!

    E grito de paixão, mesmo calando,
    Pois meu silêncio é a forma mais sincera
    Com que posso mostrar quanto eu quisera
    Viver de amor... Sem mais penar cantando!

    Sinto esvair em mim a juventude;
    E tudo o que eu desejo na velhice
    É moldar meus defeitos na virtude,

    Sem mais arrepender-me da tolice
    Pelos amores todos que não pude
    Viver... (Ou que, por timidez, não disse!)




    JOSIAS DA SILVA

    22 de Abril de 2009

    SOLITÁRIO NUM CAMINHO ESCURO de " Rui Ressurreição "




    solitário num caminho escuro
    perguntei ao vento
    por que a minha vida era frágil e leve
    e por que eu estava na corda bamba
    dançando ao sabor das marés
    ...
    avistei o mar
    e gritei no firmamento
    por que sofria angústias e temores
    dores e remorsos de não ter feito
    sabendo que tinha tudo dentro de mim
    ...
    quem sou eu neste mundo?
    neste oceano profundo que me engole
    e me devora as entranhas
    num festival de sensações de afogamento
    em mágoas e choros
    de encontro à luz duma vida sem carinho
    nem esperança
    nem vislumbre de dias melhores
    dentro do meu ser
    dentro do meu viver
    ...
    eu bato a todas as portas
    eu abro a minha mente e a minha alma
    eu procuro
    eu negoceio com o destino
    por entre cartas jogadas por baixo da mesa
    com rasteiras implacáveis
    dos vendilhões dos templos modernos
    desta loucura de correrias e devaneios
    pelas avenidas da falsidade
    mas...
    mas eu quero resistir a este devorador de ideias
    e acariciador de almas desoladas
    em poços de amargura
    que já não têm salvação
    a não ser com a gratidão interior
    ao criador do nosso mundo
    em tudo o que há de mais profundo...


    poema original de

    RUI RESSURREIÇÃO
    DIA 27.07.2008,ÀS 4:38.

    20 de Abril de 2009

    Porque Escondes a Noite no teu Ventre? de JOAQUIM PESSOA






    Porque escondes a noite no teu ventre?

    Nesse país de sombra onde se calam as palavras.

    Aí, no escuro lago onde estremece a flor da amendoeira

    E onde vão morrer todos os cisnes.



    Eu desvendo a tua dor, o teu mistério

    De caminhares assim calada e triste,

    Quando viajo em ti com as mãos nuas e o coração louco

    No mais fundo de ti, onde só tu existes.



    Oh, eu percorro as tuas coxas devagar

    Dobrando-as lentamente contra o peito

    E penetro em delírio a tua noite

    Esporeando éguas no teu sangue.

    De onde me chegam estas palavras?



    Joaquim Pessoa

    17 de Abril de 2009

    RAIOS DE LUZ poema de Rui Ressurreição




    Rios de luz...

    uma cruz que vou deixar para trás

    um cabaz de soluções,

    para os corações, frios e duros

    que vão ficar puros e limpos de traumas

    e assim caminhar pela vida de cabeça erguida,

    na procura da felicidade



    poema original de RUI RESSURREIÇÃO

    DIA 25.09.2008,ÀS 15:21

    15 de Abril de 2009

    POEMA de Rui Ressurreição







    Água...

    Mar...

    Pôr-do-sol.

    Duas almas

    ao encontro

    de si mesmas,

    numa pureza

    de embalar emoções...

    rios de sensações

    que correm pelos

    subterrâneos da mente,

    que contente,

    avança sem medo,

    apenas em segredo,

    ondula na suavidade do

    teu coração,

    que com gratidão,

    amanhece todos os dias,

    com alegria

    e energia,

    para se renovar

    na sua forma de amar.



    POEMA ORIGINAL DE RUI RESSURREIÇÃO

    7 DE FEVEREIRO 2009,1:35

    14 de Abril de 2009

    DA DISCRIÇÃO de Mário Quintana





    Não te abras com teu amigo
    Que ele um outro amigo tem.
    E o amigo do teu amigo
    Possui amigos também...

    Mario Quintana

    12 de Abril de 2009

    Gozo IX de Maria Teresa Horta




    GOZO IX


    Ondula mansamente a tua lingua
    de saliva tirando
    toda a roupa...


    já breves vêm os dias
    dentro de noites já
    poucas.


    Que resta do nosso
    gozo
    se parares de me beijar?


    Oh meu amor...
    devagar...
    até que eu fique louca!


    Depois... não vejas o mar
    afogado em minha
    boca!




    Maria Teresa Horta

    11 de Abril de 2009

    A SECRETA VIAGEM de David Mourão_Ferreira






    No barco sem ninguém ,anónimo e vazio,

    ficámos nós os dois ,parados ,de mão dada ...

    Como podem só os dois governar um navio?

    Melhor é desistir e não fazermos nada!

    Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,

    tornamo-nos reais,e de maneira,à proa...

    Que figuras de lenda!Olhos vagos,perdidos...

    Por entre nossas mâos , o verde mar se escoa...

    Aparentes senhores de um barco abandonado,

    nós olhamos,sem ver,a longínqua miragem...

    Aonde iremos ter?- Com frutos e pecado,

    se justifica, enflora, a secreta viagem!

    Agora sei que és tu quem me fora indicada.

    O resto passa ,passa...alheio aos meus sentidos.

    -Desfeitos num rochedo ou salvos na ensseada,

    a eternidade é nossa ,em madeira esculpidos!



    David Mourão_Ferreira

    10 de Abril de 2009

    EU TE AMO... NÃO DIZ TUDO!...Arnaldo Jabor






    Você sabe que é amado(a) porque lhe disseram isso?

    A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e palavras.

    Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida,

    Que zela pela sua felicidade,
    Que se preocupa quando as coisas não estão dando certo,

    Que se coloca a postos para ouvir suas dúvidas,
    E que dá uma sacudida em você quando for preciso.

    Ser amado é ver que ele(a) lembra de coisas que você contou dois anos atrás,

    É ver como ele(a) fica triste quando você está triste,
    E como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d'água.

    Sente-se amado aquele que não vê transformada a mágoa em munição na hora da discussão.

    Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente inteiro.
    Aquele que sabe que tudo pode ser dito e compreendido.

    Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é,
    Sem inventar um personagem para a relação,
    Pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.

    Sente-se amado quem não ofega, mas suspira;
    Quem não levanta a voz, mas fala;
    Quem não concorda, mas escuta.

    Agora, sente-se e escute: Eu te amo não diz tudo!




    Arnaldo Jabor

    9 de Abril de 2009

    * JOELHO * de Maria Teresa Horta





    Ponho um beijo
    demorado
    no topo do teu joelho

    Desço-te a perna
    arrastando
    a saliva pelo meio

    Onde a língua
    segue o trilho
    até onde vai o beijo

    Não há nada
    que disfarce
    de ti aquilo que vejo

    Em torno um mar
    tão revolto
    no cume o cimo do tempo

    E os lençóis desalinhados
    como se fosse
    de vento

    Volto então ao teu
    joelho
    entreabrindo-te as pernas

    Deixando a boca
    faminta
    seguir o desejo nelas.


    Maria Teresa Horta

    7 de Abril de 2009

    * ILHA * de David Mourão- Ferreira




    Deitada és uma ilha E raramente
    surgem ilhas no mar tão alongadas
    com tão prometedoras enseadas
    um só bosque no meio florescente

    promontórios a pique e de repente
    na luz de duas gémeas madrugadas
    o fulgor das colinas acordadas
    o pasmo da planície adolescente

    Deitada és uma ilha Que percorro
    descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
    Mas nem sabes se grito por socorro

    ou se te mostro só que me inebrias
    Amiga amor amante amada eu morro
    da vida que me dás todos os dias


    David Mourão-Ferreira

    5 de Abril de 2009

    ... de Bob Marley




    Os ventos que as vezes tiram
    algo que amamos, são os
    mesmos que trazem algo que
    aprendemos a amar...
    Por isso não devemos chorar
    pelo que nos foi tirado e sim,
    aprender a amar o que nos foi
    dado.Pois tudo aquilo que é
    realmente nosso, nunca se vai
    para sempre...


    Bob Marley

    * Poema Sobre a Recusa * de MariaTeresa Horta







    Como é possível perder-te
    sem nunca te ter achado
    nem na polpa dos meus dedos
    se ter formado o afago
    sem termos sido a cidade
    nem termos rasgado pedras
    sem descobrirmos a cor
    nem o interior da erva.

    Como é possível perder-te
    sem nunca te ter achado
    minha raiva de ternura
    meu ódio de conhecer-te
    minha alegria profunda.



    Maria Teresa Horta


    *******************


    Love of my life, you hurt me,
    You broken my heart, now you leave me.

    Love of my life cant you see,
    Bring it back bring it back,
    Dont take it away from me,
    Because you dont know what it means to me.

    Love of my life dont leave me,
    Youve stolen my love now desert me,

    Love of my life cant you see,
    Bring it back bring it back,
    Dont take it away from me,
    Because you dont know what it means to me.

    You will remember when this is blown over,
    And everythings all by the way,
    When I grow older,
    I will be there by your side,
    To remind how I still love you
    I still love you.

    Hurry back hurry back,
    Dont take it away from me,
    Because you dont know what it means to me.

    Love of my life,
    Love of my life.

    2 de Abril de 2009

    OS DEGRAUS .....de Mário Quintana




    Não desças os degraus do sonho
    Para não despertar os monstros.
    Não subas aos sótãos - onde
    Os deuses, por trás das suas máscaras,
    Ocultam o próprio enigma.
    Não desças, não subas, fica.
    O mistério está é na tua vida!
    E é um sonho louco este nosso mundo...


    *****************


    A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
    Quando se vê, já são seis horas!
    Quando de vê, já é sexta-feira!
    Quando se vê, já é natal...
    Quando se vê, já terminou o ano...
    Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
    Quando se vê passaram 50 anos!

    Agora é tarde demais para ser reprovado...
    Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
    Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
    Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
    E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
    Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
    A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.


    Mário Quintana

    31 de Março de 2009

    Nem Tudo é Fácil...CECICILA MEIRELES




    Nem tudo é fácil

    É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
    É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
    É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
    É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
    É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
    É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
    É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
    É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
    Se você errou, peça desculpas...
    É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
    Se alguém errou com você, perdoa-o...
    É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
    Se você sente algo, diga...
    É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar
    alguém que queira escutar?
    Se alguém reclama de você, ouça...
    É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
    Se alguém te ama, ame-o...
    É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
    Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível
    Precisamos acreditar, ter fé e lutar
    para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos,
    realidade!!!

    Cecília Meireles

    Você Não Me Ensinou a te Esquecer de Bruno Mattoa/Odair José





    VOZ DE " CAETANO VELOSO "

    Não vejo mais você faz tanto tempo
    Que vontade que eu sinto
    De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços
    É verdade, eu não minto

    E nesse desespero em que me vejo
    Já cheguei a tal ponto
    De me trocar diversas vezes por você
    Só pra ver se te encontro

    Você bem que podia perdoar
    E só mais uma vez me aceitar
    Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la

    Agora, que faço eu da vida sem você?
    Você não me ensinou a te esquecer
    Você só me ensinou a te querer
    E te querendo eu vou tentando te encontrar
    Vou me perdendo
    Buscando em outros braços seus abraços
    Perdido no vazio de outros passos
    Do abismo em que você se retirou
    E me atirou e me deixou aqui sozinho

    Agora, que faço eu da vida sem você?
    Você não me ensinou a te esquecer
    Você só me ensinou a te querer
    e te querendo eu vou tentando me encontrar

    E nesse desepero em que me vejo
    já cheguei a tal ponto
    de me trocar diversas vezes por você
    só pra ver se te encontro

    Você bem que podia perdoar
    E só mais uma vez me aceitar
    Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la

    Agora, que faço eu da vida sem você?
    Você não me ensinou a te esquecer
    Você só me ensinou a te querer
    E te querendo eu vou tentando te encontrar
    Vou me perdendo
    Buscando em outros braços seus abraços
    Perdido no vazio de outros passos
    Do abismo em que você se retirou
    E me atirou e me deixou aqui sozinho

    Agora, que faço eu da vida sem você?
    Você não me ensinou a te esquecer
    Você só me ensinou a te querer
    e te querendo eu vou tentando te encontrar
    Vou me perdendo
    Buscando em outros braços seus abraços
    Perdido no vazio de outros passos
    Do abismo em que você se retirou
    E me atirou e me deixou aqui sozinho

    Agora, que faço eu da vida sem você?
    Você não me ensinou a te esquecer
    Você só me ensinou a te querer
    E te querendo eu vou tentando me encontrar

    30 de Março de 2009

    SONETO DO CATIVO de David Mourão-Ferreira






    Se é sem dúvida Amor esta explosão
    de tantas sensações contraditórias;
    a sórdida mistura das memórias,
    tão longe da verdade e da invenção;

    o espelho deformante; a profusão
    de frases insensatas, incensórias;
    a cúmplice partilha nas histórias
    do que os outros dirão ou não dirão;

    se é sem dúvida Amor a cobardia
    de buscar nos lençóis a mais sombria
    razão de encantamento e de desprezo;

    não há dúvida, Amor, que te não fujo
    e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
    tenho vivido eternamnete preso!


    David Mourão-Ferreira

    29 de Março de 2009

    * Retrato em Branco e Preto * de CHICO BUARQUE





    Já conheço os passos dessa estrada
    Sei que não vai dar em nada
    Seus segredos sei de cor
    Já conheço as pedras do caminho,
    E sei também que ali sozinho,
    Eu vou ficar tanto pior
    E o que é que eu posso contra o encanto,
    Desse amor que eu nego tanto
    Evito tanto e que, no entanto,
    Volta sempre a enfeitiçar
    Com seus mesmos tristes, velhos fatos,
    Que num álbum de retratos
    Eu teimo em colecionar

    Lá vou eu de novo como um tolo,
    Procurar o desconsolo,
    Que cansei de conhecer
    Novos dias tristes, noites claras,
    Versos, cartas, minha cara
    Ainda volto a lhe escrever
    Pra lhe dizer que isso é pecado,
    Eu trago o peito tão marcado
    De lembranças do passado e você sabe a razão
    Vou colecionar mais um soneto,
    Outro retrato em branco e preto
    A maltratar meu coração


    Chico Buarque

    28 de Março de 2009

    " Como Roubar Um Coração " de Luis Fernando Verissimo







    Para se roubar um coração é preciso que seja
    com muita habilidade,
    tem que ser vagarosamente, disfarçadamente,
    não se chega com ímpeto,
    não se alcança o coração de alguém com pressa.

    Tem que se aproximar com meias palavras,
    suavemente, apoderar-se dele
    aos poucos, com cuidado.
    Não se pode deixar que
    percebam que ele será
    roubado, na verdade, teremos que
    furtá-lo, docemente.

    Conquistar um coração de verdade dá
    trabalho, requer paciência, é
    como se fosse tecer uma colcha de retalhos,
    aplicar uma renda em um
    vestido, tratar de um jardim,
    cuidar de uma criança.

    É necessário que seja com destreza,
    com vontade, com encanto,
    carinho e sinceridade.

    Para se conquistar um coração definitivamente
    tem que ter garra e
    esperteza, mas não falo dessa esperteza que
    todos conhecem, falo da
    esperteza de sentimentos, daquela que existe
    guardada na alma em
    todos os momentos.

    Quando se deseja realmente conquistar um
    coração, é preciso que antes
    já tenhamos conseguido conquistar o nosso,
    é preciso que ele já tenha
    sido explorado nos mínimos detalhes, que
    já se tenha conseguido
    conhecer cada cantinho, entender cada espaço
    preenchido e aceitar
    cada espaço vago.

    ...e então, quando finalmente esse coração
    for conquistado, quando
    tivermos nos apoderado dele, vai existir
    uma parte de alguém que
    seguirá connosco.
    Uma metade de alguém que
    será guiada por nós e o
    nosso coração passará a bater por
    conta desse outro coração.

    Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com
    certeza haverá instantes,
    milhares de instantes de alegria.
    Baterá descompassado muitas vezes e
    sabe por quê?
    Faltará a metade dele que
    ainda não está junto de nós.

    Até que um dia, cansado de estar dividido
    ao meio, esse coração
    chamará a sua outra parte e alguém por
    vontade própria sem que
    precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará
    a metade que faltava.

    ... e é assim que se rouba um coração,
    fácil não? Pois é, nós só
    precisaremos roubar uma metade, a outra virá
    na nossa mão e ficará
    detectado um roubo então!

    E é só por isso que encontramos tantas pessoas
    pela vida a fora que
    dizem que nunca mais conseguiram amar
    alguém......é simples.......é
    porque elas não possuem mais coração,
    eles foram roubados, arrancados
    do seu peito, e somente com um grande amor
    ela terá um novo coração,
    afinal de contas, corações são para
    serem divididos, e com certeza
    esse grande amor repartirá o dele com você!!!!



    (Luís Fernando Veríssimo)

    25 de Março de 2009

    Soneto da Separação de VINICIUS DE MORAES




    De repente do riso fez-se o pranto
    Silencioso e branco como a bruma
    E das bocas unidas fez-se a espuma
    E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

    De repente da calma fez-se o vento
    Que dos olhos desfez a última chama
    E da paixão fez-se o pressentimento
    E do momento imóvel fez-se o drama.

    De repente, não mais que de repente
    Fez-se de triste o que se fez amante
    E de sozinho o que se fez contente.

    Fez-se do amigo próximo o distante
    Fez-se da vida uma aventura errante
    De repente, não mais que de repente.



    VINICIUS DE MORAES

    23 de Março de 2009

    Ah! .....poema de Cacaso





    Ah se pelo menos o pensamento
    não sangrasse!
    Ah se pelo menos o coração
    não tivesse memória!
    Como seria menos linda
    e mais suave minha história!


    (Cacaso)

    20 de Março de 2009

    BOB Marley






    As Vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas... O tempo passa... e descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!

    Bob Marley

    16 de Março de 2009

    EU poema de FLORBELA ESPANCA





    Eu sou a que no mundo anda perdida,
    Eu sou a que na vida não tem norte,
    Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
    Sou a crucificada... a dolorida...
    *
    Sombra de névoa ténue e esvaecida,
    E que o destino amargo, triste e forte,
    Impele brutalmente para a morte!
    Alma de luto sempre incompreendida!...
    *
    Sou aquela que passa e ninguém vê...
    Sou a que chamam triste sem o ser...
    Sou a que chora sem saber por quê...
    *
    Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
    Alguém que veio ao mundo pra me ver,
    E que nunca na vida me encontrou!


    FLORBELA ESPANCA

    13 de Março de 2009

    CANÇÃO de Cecília Meireles




    Pus o meu sonho num navio
    e o navio em cima do mar;
    - depois, abri o mar com as mãos,
    para o meu sonho naufragar


    Minhas mãos ainda estão molhadas
    do azul das ondas entreabertas,
    e a cor que escorre de meus dedos
    colore as areias desertas.


    O vento vem vindo de longe,
    a noite se curva de frio;
    debaixo da água vai morrendo
    meu sonho, dentro de um navio...


    Chorarei quanto for preciso,
    para fazer com que o mar cresça,
    e o meu navio chegue ao fundo
    e o meu sonho desapareça.


    Depois, tudo estará perfeito;
    praia lisa, águas ordenadas,
    meus olhos secos como pedras
    e as minhas duas mãos quebradas.



    Cecília Meireles

    7 de Março de 2009

    CONTO DE FADAS de Florbela Espanca









    Eu trago-te nas mãos o esquecimento
    Das horas más que tens vivido, Amor!
    E para as tuas chagas o ungüento
    Com que sarei a minha própria dor.

    Os meus gestos são ondas de Sorrento...
    Trago no nome as letras duma flor...
    Foi dos meus olhos garços que um pintor
    Tirou a luz para pintar o vento...

    Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
    O manto dos crepúsculos da tarde,
    O sol que é de oiro, a onda que palpita.

    Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
    Eu sou Aquela de quem tens saudade,
    A princesa de conto: "Era uma vez..."




    Florbela Espanca

    1 de Março de 2009

    FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA poema " Um Silêncio Absoluto "



    Escuto

    Escuto o silêncio
    um silêncio absoluto

    Sinto

    sinto o pendular
    da inteligência do meu génio louco

    Escuto

    escuto o eclodir
    da potência no meu primeiro géne

    Sinto

    sinto rasgar-se em cizão
    o espasmo do meu pai primitivo

    Sinto

    Sinto a dinâmica primária
    do alvorecer do dia-calor



    FERNANDO MONTEIRO

    do livro " Mar Branco "


    Poeta da minha Ilha . S.Maria-Açores

    28 de Fevereiro de 2009

    TIMIDEZ de Cecilia Meireles




    Basta-me um pequeno gesto,
    feito de longe e de leve,
    para que venhas comigo
    e eu para sempre te leve...

    - mas só esse eu não farei.

    Uma palavra caída
    das montanhas dos instantes
    desmancha todos os mares
    e une as terras mais distantes...

    - palavra que não direi.

    Para que tu me adivinhes,
    entre os ventos taciturnos,
    apago meus pensamentos,
    ponho vestidos noturnos,

    - que amargamente inventei.

    E, enquanto não me descobres,
    os mundos vão navegando
    nos ares certos do tempo,
    até não se sabe quando...

    e um dia me acabarei.



    Cecília Meireles

    27 de Fevereiro de 2009

    " E POR VEZES " poema de David Mourão-Ferreira




    E por vezes as noites duram meses
    E por vezes os meses oceanos
    E por vezes os braços que apertamos
    nunca mais são os mesmos E por vezes

    encontramos de nós em poucos meses
    o que a noite nos fez em muitos anos
    E por vezes fingimos que lembramos
    E por vezes lembramos que por vezes

    ao tomarmos o gosto aos oceanos
    só o sarro das noites não dos meses
    lá no fundo dos copos encontramos

    E por vezes sorrimos ou choramos
    E por vezes por vezes ah por vezes
    num segundo se evolam tantos anos


    David Mourão - Ferreira

    NÃO POSSO ADIAR O AMOR de António Ramos Rosa







    Não posso adiar o amor para outro século
    não posso
    ainda que o grito sufocante na garganta
    ainda que o ódio estale e crepite e arda
    sob montanhas cinzentas

    Não posso adiar este abraço
    que é uma arma de dois gumes
    amor e ódio

    Não posso adiar
    ainda que a noite pese séculos sobre as costas
    e a aurora imprecisa demore
    não posso adiar para outro século a minha vida
    nem o meu amor
    nem o meu grito de libertação

    Não posso adiar o coração



    ANTÓNIO RAMOS ROSA

    25 de Fevereiro de 2009

    ESPELHO LOUCO
    poema de Szabó Lfirinc ( Hungria )





    Sucedem coisas novas sem cessar,
    e já estas fora delas. Faço a barba,
    e lembro-me de ti: lágrima larga,
    e paro: dos meus fins metade, par
    foste dos actos livres; oxalá
    tivesses sido mais! Vivo, prossigo
    dia de trabalho, e vão comigo,
    plo caminho, lembrança doce, ávida
    falta... Mas que valem lágrimas e
    caminho, querida, na solidão?
    Realidade, presente, estão aí!
    Só teu espelho te guarda, eu, a alma,
    espelho que solta as imagens, um tão
    louco espelho, que crê bater-te palmas !



    Tradução de : Ernesto Rodrigues
    do Livro ROSA DO MUNDO

    21 de Fevereiro de 2009

    CERTEZAS de Mário Quintana







    Certezas


    Não quero alguém que morra de amor por mim...

    Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.

    Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
    Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...

    Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível...
    E que esse momento será inesquecível...

    Só quero que meu sentimento seja valorizado.
    Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...
    E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.

    Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.

    Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...

    Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento...e não brinque com ele.

    E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.

    Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe...

    Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
    Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.

    Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
    Que a esperança nunca me pareça um NÃO que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como SIM.

    Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

    Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão...
    Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena.

    Mario Quintana

    13 de Fevereiro de 2009

    * MUDE * de Edson Marques






    Mas comece devagar, porque a direção
    é mais importante que a velocidade.
    Mude de caminho, ande por outras ruas,
    observando os lugares por onde você passa.
    Veja o mundo de outras perspectivas.
    Descubra novos horizontes.

    Não faça do hábito um estilo de vida.

    Ame a novidade.
    Tente o novo todo dia.
    O novo lado, o novo método, o novo sabor,
    o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
    Busque novos amigos, tente novos amores.
    Faça novas relações.
    Experimente a gostosura da surpresa.
    Troque esse monte de medo por um pouco de vida.
    Ame muito, cada vez mais, e de modos diferentes.
    Troque de bolsa, de carteira, de malas, de atitude.

    Mude.
    Dê uma chance ao inesperado.
    Abrace a gostosura da Surpresa.

    Sonhe só o sonho certo e realize-o todo dia.

    Lembre-se de que a Vida é uma só,
    e decida-se por arrumar um outro emprego,
    uma nova ocupação, um trabalho mais prazeroso,
    mais digno, mais humano.
    Abra seu coração de dentro para fora.

    Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.

    Exagere na criatividade.
    E aproveite para fazer uma viagem longa,
    se possível sem destino.
    Experimente coisas diferentes, troque novamente.
    Mude, de novo.
    Experimente outra vez.
    Você conhecerá coisas melhores e coisas piores,
    mas não é isso o que importa.
    O mais importante é a mudança,
    o movimento, a energia, o entusiasmo.

    Só o que está morto não muda !


    EDSON MARQUES

    12 de Fevereiro de 2009

    Opinião de um homem sobre o corpo feminino! .....PAULO COELHO






    Opinião de um homem sobre o corpo feminino!

    Não importa o quanto pesa.
    É fascinante tocar, abraçar e acariciar o corpo de uma mulher.
    Saber seu peso não nos proporciona nenhuma emoção.

    Não temos a menor idéia de qual seja seu manequim.
    Nossa avaliação é visual, isso quer dizer, se tem forma de guitarra... está bem.
    Não nos importa quanto medem em centímetros - é uma questão de proporções, não de medidas.

    As proporções ideais do corpo de uma mulher são: curvilíneas, cheinhas, femininas....
    Essa classe de corpo que, sem dúvida, se nota numa fração de segundo.
    As magrinhas que desfilam nas passarelas, seguem a tendência desenhada por estilistas que, diga-se de passagem, são todos gays e odeiam as mulheres e com elas competem.
    Suas modas são retas e sem formas e agridem o corpo que eles odeiam porque não podem tê-los.

    Não há beleza mais irresistível na mulher do que a feminilidade e a doçura.
    A elegância e o bom trato, são equivalentes a mil viagras.

    A maquiagem foi inventada para que as mulheres a usem.
    Usem! Para andar de cara lavada, basta a nossa.
    Os cabelos, quanto mais tratados, melhor.

    As saias foram inventadas para mostrar suas magníficas pernas.. Porque razão as cobrem com calças longas?
    Para que as confundam conosco?
    Uma onda é uma onda, as cadeiras são cadeiras e pronto.
    Se a natureza lhes deu estas formas curvilíneas, foi por alguma razão e eu reitero: nós gostamos assim.
    Ocultar essas formas, é como ter o melhor sofá embalado no sótão.

    É essa a lei da natureza... que todo aquele que se casa com uma modelo magra, anoréxica, bulêmica e nervosa logo procura uma amante cheinha, simpática, tranqüila e cheia de saúde.

    Entendam de uma vez!
    Tratem de agradar a nós e não a vocês.
    Porque, nunca terão uma referência objetiva, do quanto são lindas, dita por uma mulher.
    Nenhuma mulher vai reconhecer jamais, diante de um homem, com
    sinceridade, que outra mulher é linda.

    As jovens são lindas... mas as de 40 para cima, são verdadeiros pratos fortes.
    Por tantas delas somos capazes de atravessar o atlântico a nado.
    O corpo muda... cresce.
    Não podem pensar, sem ficarem psicóticas que podem entrar no mesmo vestido que usavam aos 18.
    Entretanto uma mulher de 45, na qual entre na roupa que usou aos 18 anos, ou tem problemas de desenvolvimento ou está se auto-destruindo.

    Nós gostamos das mulheres que sabem conduzir sua vida com equilíbrio e sabem controlar sua natural tendência a culpas.
    Ou seja, aquela que quando tem que comer, come com vontade (a dieta virá em setembro, não antes; quando tem que fazer dieta, faz dieta com vontade (não se saboteia e não sofre); quando tem que ter intimidade com o parceiro, tem com vontade; quando tem que comprar algo que goste, compra; quando tem que economizar, economiza.

    Algumas linhas no rosto, algumas cicatrizes no ventre, algumas marcas de estrias não lhes tira a beleza.
    São feridas de guerra, testemunhas de que fizeram algo em suas vidas, não tiveram anos 'em formol' nem em spa... viveram!
    O corpo da mulher é a prova de que Deus existe.
    É o sagrado recinto da gestação de todos os homens, onde foram alimentados, ninados e nós, sem querer, as enchemos de estrias, de cesárias e demais coisas que tiveram que acontecer para estarmos vivos.
    Cuidem-no! Cuidem-se! Amem-se!

    A beleza é tudo isto.



    ( Paulo Coelho)

    9 de Fevereiro de 2009

    poema de Velimir Khlébnikov





    Tempos-juncos
    Na margem do lago,
    Onde as pedras são tempo,
    Onde o tempo é de pedra.
    No lago da margem,
    Tempos, juncos,
    Na margem do lago,
    Santos, juntos.

    Tradução de: Augusto de Campos

    8 de Fevereiro de 2009

    SONETO DA SEPARAÇÃO de Vinicius de Moraes




    De repente do riso fez-se o pranto
    Silencioso e branco como a bruma
    E das bocas unidas fez-se a espuma
    E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
    De repente da calma fez-se o vento
    Que dos olhos desfez a última chama
    E da paixão fez-se o pressentimento
    E do momento imóvel fez-se o drama.


    De repente, não mais que de repente
    Fez-se de triste o que se fez amante
    E de sozinho o que se fez contente.


    Fez-se do amigo próximo o distante
    Fez-se da vida uma aventura errante
    De repente, não mais que de repente.


    Vinícius de Moraes


    QUADRILHA de Carlos Drummond de Andrade



    João amava Teresa que amava Raimundo,
    que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
    que não amava ninguém.

    João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
    Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
    Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
    que não tinha entrado na históri
    a.


    Carlos Drummond de Andrade

    7 de Fevereiro de 2009

    CURA DO CANCRO


    Recebido por e-mail, achei importante divulgar




    Um médico italiano descobriu algo simples que considera a causa do Cancro.

    Inicialmente banido da comunidade médica italiana, foi aplaudido de pé na Associação Americana contra o Cancro quando apresentou a sua terapia.

    O médico observou que todos os doentes com Cancro têm aftas. Isso já era do conhecimento da comunidade médica, mas sempre foi tratada como uma infecção oportunista por fungos - Candida albicans.
    Esse médico achou muito estranho que todos os tipo de Cancro tivessem essa característica, ou seja, vários são os tipos de tumores mas todos têm em comum o aparecimento das famosas aftas no doente.

    Então, pode estar ocorrendo o contrário - pensou ele.

    A causa do Cancro pode ser o fungo.
    E, para tratar esse fungo, usa-se o medicamento mais simples que a humanidade conhece: bicarbonato de sódio.
    Assim ele começou a tratar os seus pacientes com bicarbonado de sódio, não apenas ingerível, mas metódicamente controlado sobre os tumores.
    Resultados surpreendentes começaram a acontecer.
    Tumores de pulmão, próstata e intestinos desapareciam como num passe de mágica, junto com as Aftas!

    Desta forma, muitos pacientes de Cancro foram curados e hoje comprovam com os seus exames os resultados altamente positivos do tratamento.

    Para quem se interessar mais pelo assunto, siga o link (em inglês): não deixem de ver o video, no link abaixo.
    O médico fala em italiano, mas tem legendas em português.----->

    http://www.curenaturalicancro.com>
    /


    Lá estão os métodos utilizados para aplicação do bicarbonado de sódio sobre os tumores.
    Quaisquer tumores podem ser curados com este tratamento simples e barato.
    Parece brincadeira, não é?
    Mas foi notícia nos EUA e nunca chegou cá (para variar).
    Bem que o livro de Homeopatia recomenda tratar tumores com Borax, que é o remédio Homeopático para as aftas.
    Afinal, uma boa notícia no meio de tantas más.

    De novo, a pergunta que não quer calar: por que é que a grande imprensa não dá a menor cobertura a isto?
    Nem na TV, nem nas rádios, nem nos jornais de grande tiragem... Absolutamente nada. Quem os proíbe de noticiar?
    O médico teve que construir o seu próprio site para poder divulgar o seu trabalho de curar o Cancro (ou, pelo menos, várias das suas formas), usando apenas uma solução de bicarbonato de sódio a 20%.
    Imaginem! Bicarbonato de sódio, uma coisa que nós encontramos em qualquer farmácia ou drogaria de esquina.

    Neste link está o vídeo, aonde o médico italiano mostra a evolução do tratamento de 4 casos até á sua completa cura:
    http://www.cancer-fungus.com/sub-v1pt/sub-pt.html
    /



    Se quiser ver em português, vá a este site e basta clicar nas bandeirinhas no alto da página e muda para o idioma pretendido:


    http://www.cancerfungus.com/simoncini-cancro-fungo.php#



    Certamente que os Laboratórios não estão interessados em que esta noticia se espalhe, afinal de contas lá se vão os grandes lucros nos medicamentos que eles fabricam para uma doença tão grave que pode ser curada simplesmente com bicarbonato de sódio a 20% que custa uns simples cêntimos.


    DIVULGA NO TEU BLOG




    6 de Fevereiro de 2009

    * Perguntei a um Sábio * de William Shakespeare

    Dedicado ao meu marido, hoje no nosso 33º. Aniversário de casamento.





    Perguntei a um sábio,
    a diferença que havia
    entre amor e amizade,
    ele me disse essa verdade...
    O Amor é mais sensível,
    a Amizade mais segura.
    O Amor nos dá asas,
    a Amizade o chão.
    No Amor há mais carinho,
    na Amizade compreensão.
    O Amor é plantado
    e com carinho cultivado,
    a Amizade vem faceira,
    e com troca de alegria e tristeza,
    torna-se uma grande e querida
    companheira.
    Mas quando o Amor é sincero
    ele vem com um grande amigo,
    e quando a Amizade é concreta,
    ela é cheia de amor e carinho.
    Quando se tem um amigo
    ou uma grande paixão,
    ambos sentimentos coexistem
    dentro do seu coração.


    William Shakespeare

    2 de Fevereiro de 2009

    AS CEM REZÕES DO AMOR
    de Carlos Drummond de Andrade





    Eu te amo porque te amo,
    Não precisas ser amante,
    e nem sempre sabes sê-lo.
    Eu te amo porque te amo.
    Amor é estado de graça
    e com amor não se paga.

    Amor é dado de graça,
    é semeado no vento,
    na cachoeira, no eclipse.
    Amor foge a dicionários
    e a regulamentos vários.

    Eu te amo porque não amo
    bastante ou demais a mim.
    Porque amor não se troca,
    não se conjuga nem se ama.
    Porque amor é amor a nada,
    feliz e forte em si mesmo.

    Amor é primo da morte,
    e da morte vencedor,
    por mais que o matem (e matam)
    a cada instante de amor.


    Carlos Drummond de Andrade

    21 de Janeiro de 2009

    SONETO CV de ......William Shakespeare





    Não chame o meu amor de Idolatria
    Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
    Pois todo o meu cantar a um só se alia,
    E de uma só maneira eu o proclamo.
    É hoje e sempre o meu amor galante,
    Inalterável, em grande excelência;
    Por isso a minha rima é tão constante
    A uma só coisa e exclui a diferença.
    'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo;
    'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento;
    E em tal mudança está tudo o que primo,
    Em um, três temas, de amplo movimento.
    'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora;
    Num mesmo ser vivem juntos agora.



    William Shakespeare

    * CHAMADA * poema de Vitor Cintra









    CHAMADA


    Sinto minha alma afobada
    Por trilhas, cheias de nós,
    Sem perceber a chamada
    Feita, por almas tão sós
    Como a minha alma isolada.

    Solto as amarras do tempo
    E o pensamento, veloz,
    Corre ao sabor do momento,
    Quando o momento dá voz
    Ao meu veloz pensamento.


    VITOR CINTRA

    Do livro " Murmúrios "

    20 de Janeiro de 2009

    E DE REPENTE É NOITE poema de Salvatore Quasimodo ( Itália )






    E DE REPENTE É NOITE


    Cada um está só sobre o coração da terra
    Trespassado por um raio de sol:
    E de repente é noite.


    SALVATORE QUASIMODO

    18 de Janeiro de 2009

    Silêncios poema de ÂNGELO GOMES






    Os meus silêncios são cruéis e duros,
    Nas trevas dos dias que me ensombram,
    Nas noites em branco que me tombam,
    Nas lágrimas, nos vales e nos muros

    Será que sabes ler-me sem me ler?
    Será que no teu peito ainda existo?
    Ou fui sublinhado em mero risco
    Daqueles sem expressão e sem se ver?

    Que raros são os momentos de paixão...
    Que emergem de caudais de solidão
    E se fecham em silêncios de ternura...

    Segue os trilhos dos minutos que viveste
    Pergunta a ti própria se cresceste...
    Abre as portas aos riachos da censura


    Ângelo Gomes


    Publicado no Recanto das Letras em 03/09/2006
    Código do texto: T232092

    15 de Janeiro de 2009

    " FUMO " poema de Florbela Espanca





    Longe de ti são ermos os caminhos,
    Longe de ti não há luar nem rosas,
    Longe de ti há noites silenciosas,
    Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

    Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
    Perdidos pelas noites invernosas...
    Abertos, sonham mãos cariciosas,
    Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

    Os dias são Outonos: choram... choram...
    Há crisântemos roxos que descoram...
    Há murmúrios dolentes de segredos...

    Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
    E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
    Fumo leve que foge entre os meus dedos!...



    Florbela Espanca

    13 de Janeiro de 2009

    TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDICULAS de Álvaro de Campos








    Todas as cartas de amor são
    Ridículas.
    Não seriam cartas de amor se não fossem
    Ridículas.
    Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
    Como as outras,
    Ridículas.

    As cartas de amor, se há amor,
    Têm de ser
    Ridículas.

    Mas, afinal,
    Só as criaturas que nunca escreveram
    Cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    Quem me dera no tempo em que escrevia
    Sem dar por isso
    Cartas de amor
    Ridículas.

    A verdade é que hoje
    As minhas memórias
    Dessas cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    (Todas as palavras esdrúxulas,
    Como os sentimentos esdrúxulos,
    São naturalmente
    Ridículas.)

    Álvaro de Campos

    11 de Janeiro de 2009

    * AMIGOS * de Paulo Sant'Ana






    Neste dia de Aniversário do meu amigo e POETA " VITOR CINTRA ", dos Blogs Um Poema de Vez em Quando e A poesia de VITOR CINTRA, dedico-lhe este texto, com votos de um feliz aniversário.

    *****************************************



    Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

    A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...

    A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.

    Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

    Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

    Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...

    Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!


    Paulo Sant'Ana


    PAULO SANT'ANA

    9 de Janeiro de 2009

    HÁ CERTAS HORAS de William Shakespeare





    Há certas horas, em que não precisamos de um Amor...
    Não precisamos da paixão desmedida...
    Não queremos beijo na boca...
    E nem corpos a se encontrar na maciez de uma cama...

    Há certas horas, que só queremos a mão no ombro, o abraço apertado ou mesmo o estar ali, quietinho, ao lado...
    Sem nada dizer...

    Há certas horas, quando sentimos que estamos pra chorar, que desejamos uma presença amiga, a nos ouvir paciente, a brincar com a gente, a nos fazer sorrir...

    Alguém que ria de nossas piadas sem graça...
    Que ache nossas tristezas as maiores do mundo...
    Que nos teça elogios sem fim...
    E que apesar de todas essas mentiras úteis, nos seja de uma sinceridade
    inquestionável...

    Que nos mande calar a boca ou nos evite um gesto impensado...
    Alguém que nos possa dizer:

    Acho que você está errado, mas estou do seu lado...

    Ou alguém que apenas diga:

    Sou seu amor! E estou Aqui!


    William shakespeare

    7 de Janeiro de 2009

    " ESTE PERFUME"de Salvador Novo (México)









    Este perfume intenso de tua carne
    não é nada mais do que o mundo que deslocam e movem os globos azuis dos teus olhos.

    E a terra e os rios azuis das veias que aprisionam os teus braços.

    Há todas as laranjas redondas em teu beijo de angústia
    sacrificado à beira de um horto em que a vida se suspendeu por todos os séculos da minha.

    Que distante era o ar infinito que encheu nossos peitos.

    Arranquei-te da terra pelas raízes ébrias de tuas mãos
    e bebi-te todo, oh fruto perfeito e delicioso!

    Já sempre quando o sol apalpe a minha carne
    sentirei o rude contacto da tua
    nascida na frescura de uma alva inesperada,
    nutrida na carícia de teus rios claros e puros como o teu abraço,
    volta doce no vento que nas tardes
    vem das montanhas para o teu hálito,
    madura no sol dos teus dezoito anos,
    cálida para mim que a esperava.





    Tradução de: José Bento

    6 de Janeiro de 2009

    * ROMÂNTICOS * de Vander Lee






    Românticos são poucos,
    Românticos são loucos, desvairados
    Que querem ser o outro,
    Que pensam que o outro,
    É o paraíso.

    Românticos são lindos,
    Românticos são limpos e pirados
    Que choram com baladas,
    Que amam sem vergonha e sem juízo
    São tipos populares, que vivem pelos bares
    E mesmo certos vão pedir perdão
    E passam a noite em claro
    conhecem o gosto raro
    De amar sem medo de outra desilusão
    Romântico é uma espécie em extinção.

    31 de Dezembro de 2008

    O QUE NÃO SE RECORDA poema de Luis Rosales ( Espanha)





    O QUE NÃO SE RECORDA


    Para voltar a ser feliz era
    somente preciso ser hábil
    ao recordar.

    Buscávamos
    dentro do coração nossas lembranças.
    A alegria talvez não tenha história.
    Ao olhar para dentro de nós dois
    ficávamos calados.

    Teus olhos eram
    como um rebanho quieto
    que seu tremor reúne sob a sombra
    do álamo.

    O silêncio
    pôde mais que o esforço.

    Anoitecia

    para sempre no céu.
    Não pudemos voltar a recordá-lo.
    No mar a brisa era um menino cego.



    LUIS ROSALES

    28 de Dezembro de 2008

    * TUDO É FOI * poema de António Gedeão




    Fecho os olhos por instantes.
    Abro os olhos novamente.
    Neste abrir e fechar de olhos
    já todo o mundo é diferente.

    Já outro ar me rodeia;
    outros lábios o respiram;
    outros aléns se tingiram
    de outro Sol que os incendeia.

    Outras árvores se floriram;
    outro vento as despenteia;
    outras ondas invadiram
    outros recantos de areia.

    Momento, tempo esgotado,
    fluidez sem transparência.
    Presença, espectro da ausência,
    cadáver desenterrado.

    Combustão perene e fria.
    Corpo que a arder arrefece.
    Incandescência sombria.
    Tudo é foi. Nada acontece.


    ANTÓNIO GEDEÃO

    22 de Dezembro de 2008

    Alma Minha Gentil Que Partiste " LUIS DE CAMÕES "





    Alma minha gentil, que te partiste
    Tão cedo desta vida, descontente,
    Repousa lá no Céu eternamente,
    E viva eu cá na terra sempre triste.

    Se lá no assento etéreo, onde subiste,
    Memória desta vida se consente,
    Não te esqueças daquele amor ardente
    Que já nos olhos meus tão puro viste.

    E se vires que pode merecer-te
    Alguma cousa a dor que me ficou
    Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

    Roga a Deus, que teus anos encurtou,
    Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
    Quão cedo de meus olhos te levou.

    Luís de Camões

    18 de Dezembro de 2008

    " DESPERTAR " poema de Vitor Cintra







    Ânsia de amor, quando assalta,
    Faz com que o sonho esquecido
    Ganhe, de novo, sentido,
    Como a essência, que exalta.

    Ímpeto, de maré alta,
    Arte, de leito escondido,
    Dom, de sabor proibido,
    Fogo, paixão, que ressalta.

    Perda, carência, dor, falta,
    Sombra, dum tempo perdido,
    Chama, prazer reprimido;

    Onda de choque, ribalta,
    Corpos, vertigem, gemido,
    Frémito desinibido.


    VITOR CINTRA
    do livro " MURMÚRIOS "

    16 de Dezembro de 2008

    Quando se Gosta de Alguém de
    * AMÁLIA RODRIGUES *




    Quando se gosta d'alguém
    Sente-se dentro da gente
    Ainda não percebi bem
    Ao certo que é que se sente

    Quando se gosta d'alguém
    É de nós que não gostamos
    Perde-se o sono por quem
    Perdidos de amor andamos

    Quando alguém gosta d'alguém
    Anda assim como ando eu
    Que não ando nada bem
    Com este mal que me deu

    Quando se gosta d'alguém
    É como estar-se doente
    Quanto mais amor se tem
    Pior agente se sente

    Quando se gosta d'alguém
    Como eu gosto de quem gosto
    O desgosto que se tem
    É desgosto que dá gosto.

    AMÁLIA RODRIGUES

    5 de Dezembro de 2008

    ÚLTIMO SONETO poema de Mário de Sá-Carneiro




    ÚLTIMO SONETO


    Que rosas fugitivas foste ali!
    Requeriam-te os tapetes - e vieste ...
    - Se me dói hoje o bem que me fizeste,
    É justo, porque muito te devi.

    Em que seda de afagos me envolvi
    Quando entraste, nas tardes que apareceste!
    Como fui de percal quando me deste
    Tua boca a beijar, que mordi...

    Pensei que fosse o meu o teu cansaço -
    Que seria entre nós um longo abraço
    O tédio que, tão esbelta, te curvava...

    E fugiste...Que importa? Se deixaste
    A lembrança violeta que animaste,
    Onde a minha saudade a Cor se trava? ...


    MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

    30 de Novembro de 2008

    " UMA CHAMA NÃO CHAMA A MESMA CHAMA " poema de E.M.de Melo e Castro




    Uma chama não chama a mesma chama
    há uma outra chama que se chama
    em cada chama que chama pela chama
    que a chama no chamar se incendeia.

    Um nome não nome o mesmo nome
    Um outro nome nome que nomeia
    em cada nome o meio pelo nome
    que o nome no nome se incendeia.

    Uma chama um nome a mesma chama
    há um outro nome que se chama
    em cada nome o chama pelo nome
    que a chama no nome se incendeia

    Um nome uma chama o mesmo nome
    há uma outra chama que nomeia
    em caa chama o nome que se chama
    o nome que se chama se incendeia.

    E.M de Melo e Castro

    26 de Novembro de 2008

    * OLHOS TRISTES *poema de Vitor Cintra




    Olhos tristes, senhora,
    Os vossos. Tristes de mais,
    Olhos de dor, de quem chora.
    Senhora, porque chorais?


    Se essa tristeza, que mora
    Nos olhos, nos dá sinais
    Da mágoa, que vos devora
    E, a medo, mal disfarçais,
    Mostrai-nos então, se agora,
    Dos olhos, porque me olhais,
    Se vai a tristeza embora,
    Ou quedam tristes, iguais.

    VITOR CINTRA

    do livro " MURMÚRIOS "

    19 de Novembro de 2008

    "Quando me Amei de Verdade " de Kim McMillen & Alison McMillen





    Quando me amei de verdade,
    pude compreender
    que em qualquer circunstância,
    eu estava no lugar certo,
    na hora certa.
    Então pude relaxar.

    Quando me amei de verdade,
    pude perceber que o
    sofrimento emocional é um sinal
    de que estou indo contra a minha verdade.

    Quando me amei de verdade,
    parei de desejar que a minha vida
    fosse diferente e comecei a ver
    que tudo o que acontece contribui
    para o meu crescimento.

    Quando me amei de verdade,
    comecei a perceber como
    é ofensivo tentar forçar alguma coisa
    ou alguém que ainda não está preparado
    - inclusive eu mesma.

    Quando me amei de verdade,
    comecei a me livrar de tudo
    que não fosse saudável.
    Isso quer dizer: pessoas, tarefas,
    crenças e - qualquer coisa que
    me pusesse pra baixo.
    Minha razão chamou isso de egoismo.
    Mas hoje eu sei que é amor-próprio.

    Quando me amei de verdade,
    deixei de temer meu tempo livre
    e desisti de fazer planos.
    Hoje faço o que acho certo
    e no meu próprio ritmo.
    Como isso é bom!

    Quando me amei de verdade,
    desisti de querer ter sempre razão,
    e com isso errei muito menos vezes.

    Quando me amei de verdade,
    desisti de ficar revivendo o passado
    e de me preocupar com o futuro.
    Isso me mantém no presente,
    que é onde a vida acontece.

    Quando me amei de verdade,
    percebi que a minha mente
    pode me atormentar e me decepcionar.
    Mas quando eu a coloco
    a serviço do meu coração,
    ela se torna uma grande e valiosa aliada.



    Trechos do livro "Quando me Amei de Verdade " de Kim McMillen & Alison McMillen

    16 de Novembro de 2008

    MÃE de Almada Negreiros





    Mãe!

    Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro,encarnado!
    Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
    Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

    Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
    Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado.
    Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

    Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!
    Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.
    Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exatamente para a nossa casa, como a mesa.

    Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
    Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!


    ALMADA NEGREIROS

    12 de Novembro de 2008

    Espero-te Sem Te Esperar de MARIA JOÃO L.









    Sei como pode ser difícil o outro lado da viagem
    Onde reinam tuas imensas razões,
    E onde habitam as minhas profundas emoções.
    Percorremos a Terra, caminhando em labirintos de cores e cheiros diferentes.
    Será que a melodia que nos uniu, pode ser poderosa e vencer a tua multidão ?
    Mas eu não quero conquistar ninguém...
    Mas, também não quero nada que te possa magoar,
    Se os ANJOS me revelassem, que nosso abraço nasceu para ser apenas sonhado,
    Eu guardava-te para sempre escondido no meu coração.
    Sempre deixei que fosses tu a comandar este amor...
    Tens uma vida lindamente merecida e esculpida de razões...
    Sei compreender
    Aprendi tanto de amor a doer
    Sei continuar a sonhar...

    E neste sentir maior assim espero-te sempre sem te esperar ...




    Maria João L.


    (Texto que me foi enviado e que achei muito bonito, partilho-o aqui)

    10 de Novembro de 2008

    ÁRVORE poema de Kóstas Karyotákis ( Grécia)




    ÁRVORE


    Com rosto indiferente e ar de pouco caso,
    saúdo as madrugas, os ocasos.

    Árvore, hei-de olhar, com mirada isenta,
    o céu azul ou a fúria da tormenta.

    A vida, digo, é féretro no qual
    dor,
    alegria do homem têm o seu final

    5 de Novembro de 2008

    SOLIDÃO de Afonso Henriques







    Saudade é solidão acompanhada,
    É quando o amor ainda não foi embora,
    Mas o amado já...
    Saudade é amar um passado que ainda não passou,
    É recusar um presente que nos machuca,
    É não ver o futuro que nos convida...
    Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
    Saudade é o inferno dos que perderam,
    É a dor dos que ficaram para trás,
    É o gosto de morte na boca dos que continuam...
    Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
    Aquela que nunca amou.
    E esse é o maior dos sofrimentos:
    Não ter por quem sentir saudades,
    passar pela vida e não viver.
    O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.



    AFONSO HENRIQUES

    31 de Outubro de 2008

    " A Dor Que Dói Mais " de MARTHA MEDEIROS





    Em alguma outra vida,
    devemos ter feito algo de muito grave,
    Para sentirmos tanta saudade...
    Trancar o dedo numa porta dói.
    Bater com o queixo no chão dói.
    Torcer o tornozelo dói.
    Um tapa, um soco, um pontapé , doem.
    Dói bater a cabeça na quina da mesa,
    Dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
    Mas o que mais dói é a saudade.
    Saudade de um irmão que mora longe,
    Saudade de uma cachoeira da infância,
    Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais,
    Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu,
    Saudade de uma cidade,
    Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
    Doem estas saudades todas.
    Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
    Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.
    Você podia ficar no quarto e ela na sala, sem se verem, mas sabiam-se lá.
    Você podia ir para o dentista e ela pra faculdade, mas sabiam-se onde.
    Você podia ficar o dia sem vê-la, ela sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
    Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
    Ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
    Saudade é basicamente não saber.
    Não saber mais se ela continua fungando num ambiente frio.
    Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
    Não saber se ela ainda usa aquela saia.
    Não saber se ele foi à consulta com o dermatologista como prometeu.
    Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre culpada,
    Se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na internet,
    A encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros,
    Se ele continua preferindo Malzebier, se ela continua detestando McDonalds,
    Se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
    Saudade é não saber mesmo!
    Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos,
    Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento,
    Não saber como frear as lágrimas diante de uma música,
    Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
    É não saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
    É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
    Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
    Saudade é isso que eu estive sentido enquanto escrevia
    E o que você provavelmente estará sentindo depois que acabar de ler.


    MARTHA MEDEIROS

    MARTHA MEDEIROS

    21 de Outubro de 2008

    OCIDENTE-ORIENTE poema de Adonis ( 'Ali Ahmad Sa'Id)




    Era algo que se estendia no túnel da História,
    Algo enfeitado e minado
    Levando seu menino de nafta envenenado,
    Por venenoso mercador cantado;
    Era um Oriente - criança que pede,
    Grita " Socorro !"
    E o Ocidente, seu senhor nunca errado -
    Mudado está agora este mapa;
    O Universo em chamas,
    Oriente - Ocidente : um só
    Túmulo
    Em cinza os tem juntado ...

    15 de Outubro de 2008

    " Já um Pouco de Vento se Demorara " poema de VITORINO NEMÉSIO






    Já um pouco de vento se demora;
    Já sua força vale a de uma mão
    Nestes papéis que trago para fora,
    Que o campo dá certeza e solidão.

    O calor fez a casa mais delgada,
    Agora colho a tarde: a vida não.
    Sou a macieira carregada:
    De palavras a mais cobri o chão.

    Árvores há no outono que conhecem
    O toque e ardor das folhas de amanhã
    E esperando-as, altas, adormecem.
    Com espaço e vento nunca a vida é vã.

    Eu volto à mão do outono em meus papéis.
    Penso e, indiscreto, o ar remove
    Estas imagens cruéis
    Que a minha vida comove



    VITORINO NEMÉSIO

    10 de Outubro de 2008

    AMIÚDE poema de Raul de Carvalho






    AMIÚDE

    No vale dos afectos
    ninguém está seguro:
    Mingua a lembrança,
    Esquece-se o rosto,
    Retorna-se ao eu,
    Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a
    presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo -

    E apenas as pequenas ilusões
    - um café, o cigarro, a limonada -
    imitam dois corações unidos ...



    Raul de Carvalho

    5 de Outubro de 2008

    O BANHO DOS POBRES poema de Tonino Guerra ( Itália )




    O BANHO DOS POBRES


    Os pobres da minha terra
    tomam banho no rio
    e estão de molho na água
    um dia inteiro.
    Ali há muito ar muito sol muitos borrifos.
    Voltam quando é noite
    Encontram outra vez as velhas casas
    com as cabeças dos gatos aos janelos
    e toda a água nos cântaros represa.

    30 de Setembro de 2008

    EU NÃO SEI AO CERTO ... poema de Jaime Sabines ( México )




    EU NÃO SEI AO CERTO...


    Eu não sei ao certo, mas suponho
    que uma mulher e um homem
    um dia se amam,
    vão ficar sozinhos pouco a pouco,
    algo em seu coração lhes diz que estão sós,
    sós sob a terra se penetram,
    vão-se matando um ao outro.

    Tudo se faz em silêncio.
    Como a luz se faz dentro dos olhos.
    O amor une corpos.
    Em silêncio vão-se enchendo um ao outro.

    Qualquer dia acordam sobre braços;
    pensam então que sabem tudo.
    Vêem-se nus e sabe, tudo.

    ( Eu não sei ao certo. Suponho-o )



    JAIME SABINES

    25 de Setembro de 2008

    CANÇÃO poema de ANTÓNIO BOTTO





    CANÇÃO


    Se fosses luz serias a mais bela
    De quantas há no mundo : - a luz do dia!
    -Bendito seja o teu sorriso
    Que desata a inspiração
    Da minha fantasia!
    Se fosses flor serias o perfume
    Concentrado e divino que perturba
    O sentir de quem nasce para amar!
    - Se desejo o teu corpo é porque tenho
    Dentro de mim
    A sede a e vibração de te beijar!
    Se fosses água - música da terra,
    Serias água pura e sempre calma!
    - Mas de tudo o que possa ser na vida,
    Só quero, meu amor, que sejas alma!



    ANTÓNIO BOTTO

    19 de Setembro de 2008

    NÃO GOSTO




    Não gosto de meias palavras.

    Prefiro o silêncio aos gritos ensurdecedores das pessoas com quem tenho de falar e que não me dizem nada.

    Não gosto de engolir palavras que não mereço, nem de desculpas esfarrapadas.

    Não gosto de pessoas que só querem o que não têm e quando têm o que querem, não sabem do que gostam.

    Não gosto de ouvir, talvez, não sei, sei lá, depois vê-se, tem paciência.

    Não gosto que me peçam desculpa.

    Não gosto que me prometam e não cumpram, de encontros desmarcados e de esperas infinitas.

    Não gosto de gritos, de confusões, de gestos teatrais e dramatismos.

    Não gosto de intrigas e de histórias mal contadas, não gosto de meias verdades.

    Não gosto de palavras sem sentido e de falar por falar.

    Não gosto que falem comigo e não me olhem nos olhos.

    Não gosto de palavras arrastadas e de segredos mal guardados.

    Não gosto de pessoas que andam de nariz empinado e se acham melhores que os outros.

    Que pensam que sabem tudo e que falam com arrogância, que têm um ar de gozo, mas que choram por dentro.

    Não gosto de perder tempo, prefiro gastá-lo com o que mais gosto.

    Não gosto de lágrimas de crocodilo nem de sorrisos amarelos.

    Não gosto de pessoas que falam mansinho ao chefe e levantam a voz à mulher da limpeza.

    Não gosto de pessoas que sabem que não têm razão e ainda assim não o admitem.

    Não gosto de não poder acreditar nas outras pessoas nem de voltar atrás na palavra e ainda menos que voltem atrás comigo.

    Não gosto de pessoas que não olham a meios para atingir os seus fins.

    Não gosto de quem não gosta de um animal.

    Não gosto de pessoas que só vêm o seu lado e que esquecem todos os outros.

    Não gosto quando não dizem que gostam de mim, quando o sentem na realidade.

    Não gosto de ter saudades daquilo que gosto.

    Não gosto que se esqueçam dos meus anos, nem de mim, mas principalmente não gosto que quando esquecida, não me guardem num lugar do coração.

    ( Desconheço o Autor

    13 de Setembro de 2008

    Filha de Um Amor Proibido - Isabel Valente




    Abaixo deixo um texto que escrevi e publiquei em 2004 no meu blog

    ALMA DE POETA

    Para além do texto, os testmunhos deixados por várias pessoas merecem ser lidos;


    http://almadepoeta.blogspot.com/2004/09/filha-de-um-amor-proibido_28.html


    Baseou-se num relato da minha própria experiência.

    -------------------------------------

    Terça-feira, Setembro 28, 2004

    Filha de Um Amor Proibido




    Os jovens de hoje não sabem que, na minha geração, haviam
    crianças nascidas fora do casamento, e em cujo registo pessoal
    constava o nome da Mãe, tendo por pai, um “ Pai Incógnito”.
    Estas crianças, eram estigmatizados como, os filhos do pecado,
    da vergonha, os filhos da outra.

    Eram os filhos fora do casamento, os bastardos.
    É que o registo obrigatório com nome de pai é recente, e eu já
    sou "Cota".

    Para a nova geração onde todos à nascença são registados com o
    nome de mãe e de um pai, verdadeiro ou não, não lhes é fácil
    explicar o que é viver com o facto diário de ser filha de” pai
    incógnito”.

    Tendo eu passado por essa experiência, não me é difícil
    explicar o que é ser filha de Pai Incógnito.
    Hoje na maioria das Repartições Públicas todas achamos uma
    grande maçada, ter de preencher formulários, para mim, passou
    a ser, uma bênção.

    Em alguns desses formulários tinha de mencionar o nome de Mãe
    e de Pai, então lá vinha o tormento ---Pai Incógnito --- .Isto
    era dito em voz baixa, tentando que ninguém ouvisse, na
    maioria dos casos não resultava, por esse mesmo motivo, era
    obrigada a repetir mais alto, sendo motivo para que toda a
    plateia se virasse para ver quem era a santa alminha que era
    fruto de tamanho pecado, e mais, ser confrontada com olhares
    de censura indirecta, em alguns casos estampado um leve
    sorriso de superioridade, e talvez que, se eu lhes lesse o
    pensamento…estaria lá bem patente “ aquela é filha da mãe”.
    O mesmo acontecia na escola, sempre que a professora me
    perguntava o nome dos meus pais, eu respondia o nome da minha
    mãe, ela, pensando que eu não tinha entendido que o pretendido
    era nome dos PAIS, lá eu era obrigada, envergonhadamente a
    dizer “Pai Incógnito “

    Ser filha de Pai Incógnito no meu caso, era doloroso,
    porquanto não me conformava em conhecer o meu PAI e ser
    reconhecida por ele, e esse facto não ser aceite pela própria
    sociedade .

    A censura ao mesmo tempo recai , naquele homem que traiu a
    esposa, e que nem se envergonha do seu próprio pecado, quando
    se proclama pai .

    A filha de Pai Incógnito, cuja responsabilidade de estar
    vivendo esse “ horror “ era o pecado dos progenitores , O
    Pecado de um Amor Proibido……sendo eu portanto a filha de um
    amor proibido.

    Ser filha de Pai Incógnito, é também sentir nos nossos meios
    irmãos esse rancor, porque somos a vergonha que manchou o seio
    da sua família, a mágoa com que a mãe deles acorda e adormece.
    Outra mesma frente de retracção, se verifica nos outros meios
    irmãos, os filhos do novo casamento da mãe, esses sim, filhos
    de um pai e de uma mãe, que têm na família um patinho feio,
    que lhes lembra não a traição da mãe, mas o pecado dela.
    Isso que atrás descrevi é a minha experiência, sentida na pele
    de criança.

    Hoje a sociedade mudou, existem filhos de pais assumidos que
    nunca viram a cara dos seus filhos, nunca pegaram neles ao
    colo, nunca lhes deram tão pouco um pouco de carinho…..ou
    mesmo, um pedaço de pão.

    Meu Pai Homem de bem, homem culto e com uma visão fora da sua
    época, nunca precisou de Instituições que o obrigassem a
    reconhecer as suas obrigações de Pai , no sentido amplo da
    palavra, soube ultrapassar todos os obstáculos, próprios da
    época afirmando aos amigos e família sem nenhum tipo de
    preconceito ” Esta é a minha filha”.

    Felizmente foram ultrapassadas essas Imposições de uma
    sociedade fascista, falsa e preconceituosa.
    Hoje só quero mesmo é relembrar o homem que adorei, que adoro
    e a quem chamei Pai sem que por isso tenha de exibir o BI….a
    minha homenagem a ele , meu PAI, .....

    A minha homenagem a minha MÂE, que foi marginalizada, apontada
    pela sociedade, que viveu esse amor, pagando caro o seu
    “pecado” .
    Benditos sejam vocês os dois que pecaram, para que eu
    existisse e, hoje esteja aqui falando para a nova geração
    sobre a minha experiência de ser filha de Pai Incógnito.


    O nome dessa grande Mulher, minha MÃE é ELVIRA, nome dado também á minha neta.

    O nome do HOMEM, mais PAI e corajoso que alguma vez conheci e do qual me orgulho, é JOÂO.



    http://almadepoeta.blogspot.com/2004/09/filha-de-um-amor-proibido_28.html




    POSTADO POR : Alma de Poeta ÁS: 02:10

    ***********************************************

    Um dia possívelmente lerei uma outra história.

    " ORFÃ DE PAI VIVO "


    Pode-se num dia amar um homem ou uma mulher e deixar de se amar, faz parte do ciclo do amor e da vida.


    Amar um filho/a não é só pegar no colo, mostra-la socialmente dizendo que é filha.


    Amar um filho/a é viver o momento, o crescimento. Partilhar as dores as alegrias, as febres, o nascer dos dentes, a primeira palavra, o prmeiro sorriso.

    É também, perder as noites na doença, nas insónias do filhos, faz parte da nossa etapa de pais, assim tal como os nossos pais, já passaram pelo mesmo.

    Faz parte também, trabalhar para além das horas, quando o ordenado é pouco, para que nada falta a um filho, é isso, amor.


    Trabalhar para além das horas normais, para viver momentos egoistas de prazer próprio, dar o nome a um filho numa certidão de nascimento e acreditar que essa criança vai viver do ar e de água e que não necessita de amor e carinho, e colo e brincar, Isso é infantilidade, é ser pai quando ainda não se cresceu em mentalidade.

    É irresponsabilidade!

    Há homens que o serão para todo o sempre, HOMENS até depois da morte.

    Há homens que serão apenas, homenzinhos.

    Quem não se ama, não pode amar os outros,menos ainda quando o egoismo prevalece acima de todos os outros valores.

    Não há seres perfeitos, mas há gente muito mal acabada.

    *******************************************


    Isabel Valente

    10 de Setembro de 2008

    SAUDADE DA PROSA poema de Manuel António Pina







    Poesia, saudade da prosa;
    escrevia "tu", escrevia "rosa";
    mas nada me pertencia,

    nem o mundo lá fora
    nem a memória,
    o que ignorava o que sabia.

    E se regressava
    oelo mesmo caminho
    não encontrava

    senão palavras
    e lugares vazios:
    símbolos, metáforas,

    o rio não era rio
    nem corria e a própria morte
    era um problema de estilo.

    Onde é que eu já lera
    o que sentia, até a
    minha alheia melancolia?


    MANUEL ANTÓNIO PINA

    29 de Julho de 2008

    SÓ poema de José Maria Lopes de Araújo








    Ai, se eu pudesse evadir-me
    De mim mesmo,
    Desta prisão
    Que me põe grades, no coração ...
    Se eu pudesse partir, correr,
    Caminhar sem norte,
    Correr , a esmo ,
    Na floresta dos meus sonhos ,
    E colher rosas orvalhadas
    E alvas hortênsias
    Nas bermas das estradas ...


    Mas correr, cantando
    Hinos de louvor à vida ,
    Pelo odor
    Que se emana da natureza
    Pelo bem da Humanidade,
    Pela pétala caída ...
    Pela beleza
    Da flor
    Que nos enche a alma e o olhar
    De alacridade
    E cor ! ...


    E continuo a viver ,
    Encarcerado ,
    Mesmo dentro de mim ...
    Esmaga-me o silêncio
    Das coisas, das pessoas ...
    E a labareda da loucura
    Continua crescendo, no incêndio
    Da floresta dos meus sonhos !


    Ai, se eu pudesse evadir-me
    Das grades do meu coração ...
    Não mais sofreria,
    Como sofro ... Não ! Não !


    Agora, já tudo é cinza ...
    Já tudo é pó ..
    E recomeço a sentir-me, no mundo,
    Isolado...Só...Muito só...
    Cada vez mais só ! ....


    JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

    8 de Julho de 2008

    " VAZIO.... " de Isabel Valente





    Vida que é vivida, vazia de afectos, palavras, carinhos, não pode ser vida, para ser vivida ,apenas sozinhos.

    Se a vida nos dá :

    Diálogo dos silêncios.
    Solidão de mãos dadas,
    É vida vazia, apenas vivida, mesmo acompanhada.

    São cacos colados, corações partidos,
    Sentimentos castrados,
    Sonhos proibidos.
    São vidas sem cor,
    Sem gestos de amor
    Apenas fachada,
    É vida de quem, amar pouco sabe, ou apenas nada!

    Viver, por viver, apenas num mundo, feito fantasia, mil vezes sofrer, a ter que morrer um pouco cada dia.


    Isabel Valente

    3 de Julho de 2008

    NOSTALGIA


    (Foto da autoria de Ricardo Chaves )


    O texto abaixo é uma transcrição do publicado no blog do RICARDO CHAVES

    aqui:

  • RCHAVES






  • Porque me fez recuar à ilha de S.Maria de outros tempos, e porque felizmente ainda hoje é possivel ás nossas crianças (da ilha), viverem um pouco assim, " em liberdade ",aqui deixo este texto que me deu imenso gosto ler, que tenho e tenho outro tanto em partilhar
    .




    Nascidos antes de 1986;

    De acordo com os reguladores e burocratas de hoje, todos nós que nascemos nos anos 60, 70 e princípio de 80 não devíamos ter sobrevivido até hoje, porque:

    -As nossas caminhas de bebé eram pintadas com cores bonitas em tinta à base de chumbo que nós muitas vezes lambíamos e mordíamos.

    -Não tínhamos frascos de medicamento com tampas “à prova de crianças”, os fechos nos armários e podíamos brincar com as panelas.

    -Quando andávamos de bicicleta, não usávamos capacetes.

    -Quando éramos pequenos viajávamos em carros sem cintos e “airbags” - viajar à frente era um bónus.

    -Bebíamos água da mangueira do jardim e não da garrafa e sabia bem.

    -Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos gasosa com açúcar, mas nunca engordávamos porque estávamos sempre a brincar lá fora.

    -Partilhávamos garrafas e copos com os amigos e nunca morremos disso.

    -Passávamos horas a fazer carrinhos de rolamentos e depois andávamos a grande velocidade pelo monte abaixo, para só depois nos lembrarmos que esquecemos de montar uns travões. Depois de acabarmos num silvado aprendíamos.

    -Saía-mos de casa de manhã e brincávamos o dia todo, desde que estivéssemos em casa antes de escurecer. Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso.

    -Não tínhamos “Play Station”, “X Box”. Nada de 40 canais de televisão, filmes de vídeo, “home cinema”, telemóveis, computadores, DVD, “Chat” na internet.

    -Tínhamos amigos - se os quiséssemos encontrar íamos à rua, jogávamos ao elástico e à barra e à bola até doía, caíamos das árvores, cortava-mo-nos, e até partíamos ossos mas sempre sem processos em tribunal. Haviam lutas com punhos mas sem sermos processados.

    -Batíamos ás portas de vizinhos e fugíamos e tínhamos mesmo medo de sermos apanhados.

    -Íamos a pé para casa dos amigos. Acreditem ou não íamos a pé para a escola, não esperávamos que a mamã ou o papá nos levassem.

    -Criávamos jogos com paus e bolas.

    -Se infringíssemos a lei era impensável os nossos pais nos safarem, eles estavam do lado da lei.


    Esta geração produziu os melhores inventores e desenrascados de sempre.
    Os últimos 50 anos têm sido uma explosão de inovação e ideias novas.

    Tínhamos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade e aprendemos a lidar com tudo.

    És um deles? Parabéns!

    Passa esta mensagem a outros que tiveram a sorte de crescer como verdadeiras crianças, antes dos advogados e governos regularem as nossas vidas, “para nosso bem”.

    Para todos os outros que não têm idade suficiente pensei que gostassem de ler acerca de nós.

    Isto meus amigos é surpreendentemente medonho… e talvez ponha um sorriso nos vossos lábios:

    A maioria dos estudantes que estão nas universidades hoje nasceram em 1986…chamam-se jovens.

    Nunca ouviram “we are the world” e “uptown girl” conhecem de Westlife e não Billy Joel.

    Nunca ouviram falar de Rick Astley, Banarama ou Belinda Carlisle. Para eles sempre houve uma Alemanha e um Vietname.

    A SIDA sempre existiu. Os CD’s sempre existiram. O Michael Jackson sempre foi branco.

    Para eles o John Travolta sempre foi redondo e não conseguem imaginar que aquele gordo fosse um dia “Deus da dança”.

    Acreditam que Missão impossível e Anjos de Charlie são filmes do ano passado.

    Não conseguem imaginar a vida sem computadores.

    Não acreditam que houve televisão a preto e branco.

    Agora vamos ver se estamos a ficar velhos:

    1. Entendes o que está escrito acima e sorris;
    2. Precisas de dormir mais depois de uma noitada;
    3. Os teus amigos estão casados ou a casar;
    4. Surpreende-te ver crianças tão à vontade com computadores;
    5. Abanas a cabeça ao ver adolescentes com telemóveis;
    6. Lembras-te da Gabriela (a primeira vez);
    7. Encontras amigos e falas dos bons velhos tempos;


    SIM. ESTÁS A FICAR VELHO, heheheh.
    …mas tivemos uma infância do caraças!!!

    Pois tivemos.




    Desconheço o AUTOR

    ... que certamente é da minha ilha S.Maria-Açores

    22 de Junho de 2008

    ELOGIO AO AMOR de Miguel Esteves Cardoso




    Ou de como eu costumo dizer:

    - O Amor é como o Chocolate, não tem de fazer sentido.

    Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la.
    Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha.

    O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza.
    Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

    O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
    Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
    Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito.
    Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
    Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido.
    Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama.
    Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
    Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".

    O amor passou a ser passível de ser combinado.
    Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
    O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
    A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível.
    O amor tornou-se uma questão prática.
    O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
    Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
    Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.






    Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos,bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

    Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

    O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha.
    Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

    Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso.
    Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja.

    Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor.
    É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode.

    Tanto faz.
    É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

    O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor.
    A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino.

    O amor puro é uma condição.
    Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe.

    Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma.
    É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária.
    A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

    O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida.
    A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.

    Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.
    O coração guarda o que se nos escapa das mãos.
    E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

    Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver
    sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.

    Não se pode ceder. Não se pode resistir.

    A vida é uma coisa, o amor é outra.
    A vida dura a Vida inteira, o amor não.

    Só um minuto de amor pode durar a vida inteira.
    E valê-la também."



    Miguel Esteves Cardoso

    12 de Junho de 2008

    * INTERROGAÇÃO * poema de José Maria Lopes de Araújo





    Não tentes afastar-me do meu rumo,
    Que eu bem sei o que quero e onde vou...
    Não lembres o passado porque é fumo
    Duma chama que, há muito, se apagou !


    Da labareda ardente só ficou
    A cinza da quimera e nada mais ...
    Do meu passado tudo se queimou ...
    E apenas restam meus doridos ais !


    E deixem-me ficar, assim sozinho,
    Com todo o sofrimento, no caminho
    Que me há-de confundir ao Redentor ...


    E pensar, meditar profundamente :
    - Por que motivos alimenta a gente
    Invejas, ódio, em vez de Paz e Amor ?


    JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

    do Livro " Outono da Vida "

    5 de Junho de 2008

    O Teu Corpo poema de ÂNGELO GOMES






    Deixa-me acordar, sorrir, esbracejar
    Em cada alvorada de sonos inquietos
    Pensamentos lentos, lista de afectos
    Tua voz sentir, acto de inventar

    Desenho o teu corpo enquanto desperto
    De suave tecido em mãos de ternura
    Que beijo e rebeijo com tanta doçura
    E amo e possuo como se estivesses perto

    Que venham sóis, chuvas ou tormentas
    Que toquem os sinos abordando rebates
    Que caiam ferros, pedras, alicates
    Que as bocas estejam secas e sedentas

    Oh... como adoro o teu corpo de frescura
    Razão das razões... toque de magia
    Que invade o meu, deixando nostalgia
    Saudade intensa, retrospectiva pura

    Corpos colados, invasão das mentes
    Selados em lençóis ou calmas areias
    Torcendo, mexendo, como centopeias
    Acabando molhados, sôfregos, ardentes

    Adoro o teu corpo de sonho e desejo...
    Suporte de um todo que vejo e revejo.



    ÂNGELO GOMES


    Publicado no Recanto das Letras em 03/09/2006
    Código do texto: T232095

    25 de Maio de 2008

    TARDE...poema de Espínola Mendonça




    Partiste no explendor da mocidade,
    E esperei que voltasses novamente.
    Escrevias dizendo: _Brevemente..._,
    E esperei uma longa eternidade.

    Anos depois tu voltas, finalmente;
    E a mim mesmo pergunto se é verdade.
    Porque sinto mais viva esta saudade
    Do que no tempo em que estiveste ausente

    Em vez d'essa alegria tão sonhada,
    Olhámo-nos, os dois, sem dizer nada.
    E cada qual de nós ficou mais triste.

    Adivinhaste... e eu adivinhei:
    Perguntas-me, talvez: _Porque voltei?_
    E eu só te sei dizer: _Porque partiste?


    Espínola de Mendonça
    ( 1891-1944 )

    28 de Abril de 2008

    APETECE-ME poema de Ângelo Gomes






    APETECE-ME, beber na tua boca, o veneno que mata os meus desejos
    Presos nas amarras do pensamento,
    Que nem o vento
    Soube levar a paragens longínquas…

    APETECE-ME. Mordiscar os dedos dos teus cabelos,
    Que nem torturados,
    Confessam pecados……………

    APETECE-ME, atravessar os rios do teu corpo,
    Que nem leito preguiçoso,
    Bebendo gota a gota em descarada timidez,
    o suor da tua nudez……..

    APETECE-ME, arrancar pedaços de ti,
    que nem pétalas de pálidas flores,
    que por amores
    têm apenas a maldade
    de encobrir a falsa virgindade……….

    APETECE-ME, rasgar as tuas entranhas
    E roubar-te o grito do prazer,
    Que nem loucuras tamanhas
    Fizeram orgasmos assim,
    E por fim,

    APETECE-ME, violar o teu abraço,
    Para no meu cansaço
    Saborear o mel
    Que escorre da tua pele,

    Arrepiado….
    Saciado…….
    APETECE-TE????
    Diz…..
    APETECE-ME, sim……
    APETECE-ME SER FELIZ……….




    Ângelo Gomes

    16 de Abril de 2008

    O TEU OLHAR poema de Ângelo Gomes





    Que é feito do olhar que me tirava das trevas?
    Que é feito da doçura que me curava tédios?
    Que é feito dos prédios alicerçados em ti….
    Que é feito de mim… que é feito do sorriso,
    Do cristal, das margens do rio que chora e não ri?

    Que falta me fazem os teus olhos de seda !…
    Que nostalgia, que vácuo, que varanda sem horizontes...
    Que fontes secas, que vida sem forma nem conteúdo !...
    Que Entrudo de máscaras que disfarçam as mágoas….
    Que fráguas, que colinas íngremes, que montes !...

    O teu olhar !... a suavidade cremosa das tuas palavras …
    Que travas … que lavas como quem descobre pepitas de ouro …
    Que colocas a soro na convalescença dos tempos !....
    O teu olhar !... a tua intensa vontade de viver …
    Que é feito da generosidade que te eleva como ser?



    Ângelo Gomes

    3 de Abril de 2008

    DESDE QUE EU O VI... poema da Alemanha , de Albert Von Chamisso






    Desde que eu o vi,
    Cega julgo estar;
    Só a ele vejo,
    Olha pra onde olhar;
    Com a sua imagem
    Sonho em pleno dia,
    Vem das trevas, sobe,
    Clara de harmonia.
    Sem ele tudo é
    Sem luz e sem cor,
    Já não me apetece
    Coas irmãs brincar;
    Agora só quero
    No quarto chorar;
    Desde que eu o vi,
    Cega julgo estar.


    Trad: João Barrento

    30 de Março de 2008

    * Como Eu Te Amo * poema de Elizabeth Barrett Browning






    Amo-te quanto em largo, alto e profundo
    Minh’alma alcança quando, transportada,
    Sente, alongando os olhos deste mundo,
    Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

    Amo-te em cada dia, hora e segundo:
    À luz do sol, na noite sossegada.
    E é tão pura a paixão de que me inundo
    Quanto o pudor dos que não pedem nada.

    Amo-te com o doer da velhas penas;
    Com sorrisos, com lágrimas de prece,
    E a fé da minha infância, ingénua e forte.

    Amo-te até nas coisas mais pequenas.
    Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
    Ainda mais te amarei depois da morte.




    Elizabeth Barrett Browning

    8 de Março de 2008

    * Indelével Saudade * poema de EUCLIDES CAVACO







    Eu choro nos meus versos a saudade
    Que é dos ausentes a eterna companheira
    Como parte do seu ser que sempre há-de
    Ser uma angústia que alimenta a vida inteira.



    Deixei chorar minha caneta de amargura
    Porque sentiu do seu poeta a emoção
    Viu que as palavras nada tinham de loucura
    Eram ditadas dum plangente coração...



    E a caneta vai chorando em cada dia
    Da minha mão sentindo a fragilidade
    Porque ela entende dum ausente a agonia!...



    São os meus versos portadores dessa ansiedade
    Feita palavra...É filha da nostalgia
    À qual nós demos o nome de Saudade !...




    Euclides Cavaco

    * FIVE O'CLOCK TEAR * poema de EMANUEL FÉLIX







    Coisa tão triste aqui esta mulher
    com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
    com seus olhos voando devagar sobre a mesa
    para pousar no talher
    Coisa mais triste o seu vaivém macio
    p'ra não amachucar uma invisível flora
    que cresce na penumbra
    dos velhos corredores desta casa onde mora

    Que triste o seu entrar de novo nesta sala
    que triste a sua chávena
    e o gesto de pegá-la

    E que triste e que triste a cadeira amarela
    de onde se ergue um sossego um sossego infinito
    que é apenas de vê-la
    e por isso esquisito

    E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
    seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
    o álbum a mesinha as manchas dos retratos

    E que infinitamente triste triste
    o selo do silêncio
    do silêncio colado ao papel das paredes
    da sala digo cela
    em que comigo a vedes

    Mas que infinitamente ainda mais triste triste
    a chávena pousada
    e o olhar confortando uma flor já esquecida
    do sol
    do ar
    lá de fora
    (da vida)
    numa jarra parada


    EMANUEL FÉLIX

    (in "A Palavra O Açoite", 1977)

    20 de Fevereiro de 2008

    EM BUSCA DO AMOR de Florbela Espanca




    O meu Destino disse-me a chorar:
    " Pela estrada da Vida vai andando,
    E, aos que vires passar, interrogando
    Acerca do Amor, que hás-de encontrar. "

    Fui pela estrada a rir e a cantar,
    As contas do meu sonho desfiando...
    E noite e dia, à chuva e ao luar,
    Fui sempre caminhando e perguntando ...

    Mesmo a um velho eu perguntei : " Velhinho,
    Viste o Amor acaso em teu caminho ? "
    E o velho estremeceu...olhou ...e riu...

    Agora pela escada, já cansados,
    Voltam todos pra trás desanimados ...
    E eu paro a murmurar : " Ninguém o viu"! ..."


    FLORBELA ESPANCA

    8 de Fevereiro de 2008

    * SONETO * poema der E.E.Cummings (E.U.A)





    Não será sempre assim... Quando não for,
    Quando teus lábios forem de outro; quando
    No rosto de outro o teu suspiro brando
    Soprar; quando em silêncio, ou no maior

    Delírio de plavras desvairando,
    Ao teu peito o estreitares com fervor;
    Quando, um dia, em frieza e desamor
    Tua afeição por mim se for trocando:

    Se tal acontecer, fala-me. Irei
    Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
    " Goza a ventura que já gozei".

    Depois, desviando os olhos, de improviso,
    Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
    Cantar no meu perdido paraíso.


    Tradução de : Manuel Bandeira

    Livro: Rosa do Mundo

    4 de Fevereiro de 2008

    * Á Cara Metade * poema de ADRIANO FERREIRA





    É na paz do teu olhar, cheio de amor:
    No arroubo da sua luz, que me ilumina:
    No seu fulgor ingénuo de menina,
    Onde embate meu ego, com fragor!

    É nesse mar imenso de ternura;
    No amplexo envolvente da sua calma,
    Onde se espalha a pureza da tua alma
    E onde mergulha a minha e se depura!

    Quando, um dia, decrépito, no fim,
    Já muito perto da última viagem,
    Rezarei para estares junto a mim.

    E no meu leito de morte, moribundo,
    Gravarei, nas pupilas, tua imagem
    -Meu doce guia, lá no outro mundo.



    ADRIANO FERREIRA

    Poeta da ilha de S.Maria - Açores

    27 de Janeiro de 2008

    Fernando Pessoa




    Tenho tanto sentimento
    Que é frequente persuadir-me
    De que sou sentimental,
    Mas reconheço, ao medir-me,
    Que tudo isso é pensamento,
    Que não senti afinal.

    Temos, todos que vivemos,
    Uma vida que é vivida
    E outra vida que é pensada,
    E a única vida que temos
    É essa que é dividida
    Entre a verdadeira e a errada.

    Qual porém é verdadeira
    E qual errada, ninguém
    Nos saberá explicar;
    E vivemos de maneira
    Que a vida que a gente tem
    É a que tem que pensar.

    12 de Janeiro de 2008

    * BRUMAS * Poema de Vitor Cintra





    Nas brumas dos meus silêncios
    Nascem visões encantadas,
    Com ninfas, bruxas e fadas,
    Sonhos de amor, sempre densos.

    Nas brumas dos meus silêncios,
    Onde os mistérios são nada,
    Surgem paixões exaltadas,
    Feitas desejos, imensos.

    Nascem lembranças, eivadas
    De sensações adiadas
    E cheiros breves, intensos,

    Sem ilusões ansiadas,
    Em desespero, guardadas
    Nas brumas dos meus silêncios.


    VITOR CINTRA
    do livro " MURMÚRIOS "

    7 de Janeiro de 2008

    FERNANDO MONTEIRO DA CÂMARA PEREIRA poema " ...Á Velocidade do Amor"





    Montei minhas asas brancas
    e corri
    para ti
    à velocidade do amor
    ...fugias louca
    rubra
    informe
    mais célebre
    mais célebre ainda
    mas num amplexo
    parido
    na furia
    do meu desejo
    absorvi
    teu corpo
    espuma ...

    Desapareceste
    de meus braços
    teu cheiro teu som
    teu eco se desfez no horizonte
    em pó em vento em nada

    Derrotado
    Inerte



    Fernando Monteiro

    Do livro " Mar Branco "


    Ilha de S.Maria - Açores

    2 de Janeiro de 2008

    " NÓS "
    poema de VITOR CINTRA




    P'ra todos nós o segredo
    Duma vivência serena,
    Vem de mão dado co'o medo;
    Que torna a vida pequena,
    Atroz.

    Quantos de nós fomos reis
    Duma utopia sem par?
    Quantos ditámos as leis
    Num reino de imaginar? ...
    Sem voz! ...

    Quantos de nós fomos pajens
    Dalgum senhor que há nos sonhos?
    Quantos fizemos viagens
    Rasgando mundos medonhos? ...
    Mas sós! ...

    Quantos de nós, por desejo
    De desvendar o mistério,
    Fomos perdendo o ensejo
    De ver aquilo que é sério,
    Em nós? ...




    Vitor Cintra


    do Livro " Murmúrios "

    20 de Dezembro de 2007

    ** RESPEITO **poema de VITOR CINTRA









    Pelas beiras dos caminhos
    Sabe Deus quantos velhinhos
    Andarão neste Natal,
    Sem que o mundo à sua frente
    Lhes prometa que o presente
    Não será sempre o normal.

    Quando o hoje é semelhante
    Ao passado, já distante,
    Como o ontem foi igual,
    O futuro não existe
    Num presente, que é tão triste,
    Sem prever melhor final.

    O saber de muitos povos
    Determina que os mais novos
    Reconheçam no idoso,
    Na velhice, ter direito
    A viver com mais respeito
    E uns anos de repouso.

    Mas serão tão atrasados
    Esses povos, apontados
    Como gente mais selvagem?...
    Ou será que o ocidente,
    Se tornou tão indif'rente,
    Que resusa aprendizagem? ...


    VITOR CINTRA
    " Relances "

    16 de Dezembro de 2007

    " SANTA MARIA "
    poema de * BEATRIZ BRAGA *

    Ilha de S.Maria - Açores





    Santa Maria,
    barco meu,
    que no oceano flutua.
    E nós, eu e tu
    à deriva, sem destino
    vamos como que
    a dar sentido,
    à minha sina... à tua ...
    És tudo p'ra mim,
    és a flor,
    és estrela,
    és jardim ...
    És sol, és lua,
    És meu lar,
    minha terra, meu mundo,
    minha vida, minha rua.
    Mas tu barco meu
    continuarás tua viagem,
    enquanto eu
    em breve te deixarei,
    pois sou uma simples tripulante,
    que por cá está de passagem.
    Mas o que importa, eu grito,
    grito-o com alegria:
    Sou filha tua,
    filha de Santa Maria,
    desse barco que flutua ! ...



    Autoria de : BEATRIZ BRAGA
    do Livro:
    " Musas da Minha Terra " de Adriano Ferreira

    12 de Dezembro de 2007

    * TEUS LÁBIOS * poema de VITOR CINTRA





    Teus lábios carnudos,
    Macios, veludo,
    Poemas de cor,
    Ainda que mudos
    Revelam, em tudo,
    Desejos, ardor;

    Em tempos tristonhos,
    Por falta, suponho,
    Das juras de amor,
    Teus lábios risonhos,
    Despertam o sonho,
    São beijos de flor.




    VITOR CINTRA

    do livro " Murmúrios "

    11 de Dezembro de 2007

    " DIZEM "
    Poema de Israel do poeta Hathan Zakh ( n.1930)




    Aquele que tropeçou, tropeçou
    dizem
    que aquele que traiu traiu
    dizem
    que aquele que está só está só
    dizem
    que aquele que esqueceu esqueceu
    dizem
    que aquele que não está contigo
    dizem que se foi embora
    dizem que esqueceu



    Tradução de : CECÍLIA MEIRELES

    10 de Dezembro de 2007

    SIDÓNIO BETTENCOURT poema " RESIGNAÇÃO "






    O tédio esta manhã, a ilha descoberta trazendo o mesmo cheiro amargo.
    a atmosfera sem pintura.o navio.o mar ao largo. o voo da gaivota sem ternura

    lá vão
    a carroça, a bilha do leite,
    o cão, a missa, o vapor, tudo aceite

    O vulcão em banho de broa. o amor apertado na lança. cantarei contigo sempre à toa do lado azul da esperança.

    Lá vão
    a carroça, a bilha do leite,
    o cão, a missa, o vapor, tudo aceite

    raiz em envelope fechado. sagrado, feito emoção. isto não tem fim, não... no meio o mar, o grito. a balada. a força da razão

    lá vão
    a carroça, a bilha do leite,
    o cão, a missa, o vapor,

    tudo aceite.


    Sidónio Bettencourt

    Do livro " Deserto de Todas as Chuvas "

    8 de Dezembro de 2007

    HORAS RUBRAS poema de Florbela Espanca








    Horas profundas, lentas e caladas,

    Feitas de beijos sensuais e ardentes,

    De noites de volúpia, noites quentes

    Onde há risos de virgens desmaiadas ...


    Ouço as olaias rindo desgrenhadas...

    Tombam astros em fogo, astros dementes.

    E do luar os beijos languescentes

    São pedaços de prata pelas estradas ...


    Os meus lábios são brancos como lagos...

    Os meus braços são leves como afagos,

    Vestiu-os o luar de sedas puras ...


    Sou chama e neve branca e misteriosa...

    E sou, talvez, na noite voluptuosa,

    Ó meu Poeta, o beijo que procuras !



    Florbela Espanca

    4 de Dezembro de 2007

    CEGUEIRA DA AMOR de Meleagro (sec.II-I a.C)





    Um caso singular
    mas sempre verdadeiro:
    se poiso em ti o olhar
    -abranjo o mundo inteiro ! ...

    Porém, ó fado torvo e prepotente,
    porém, ó sorte perra e negredada,
    se tu não vens, e passa toda a gente,
    Cego de repente
    - Já não vejo nada! ...



    Trad:Augusto Gil

    30 de Novembro de 2007

    O BEIJO poema da Grécia- Poeta anónimo

    Um rapaz beijou-me ontem à tarde
    E o seu beijo era um vinho perfumado
    Tão longamente bebi nesses lábios o vinho do amor
    que ainda agora me sinto embriagado.


    Trad: Jorge Sousa Braga

    24 de Novembro de 2007

    Daniel Gonçalves do livro
    * O AFECTO DAS PALAVRAS *

    Se precisares de mim estou sob o teu ventre
    trazendo da terra a água para o teu coração

    quero que respires como a nossa ameixieira
    e como ela te ergas sobre o rosto da manhã

    quero que ouças o meu sangue dentro de ti
    como um relógio marcando o pulso da sede

    e que nesse sopro de música saibas o amor
    e nem uma palavra te atravesse a respiração



    DANIEL GONÇALVES
    ilha de S. Maria - Açores

    22 de Novembro de 2007

    Coisas de Chat

    Recebido por e-mail



    Oi, quer teclar?
    Podemos tentar...
    De onde você é? Quantos anos? O que faz? Do que gosta?
    Nossa... quanta pergunta!
    Tudo bem, eu exagerei, acho que lhe assustei.
    Aí eu conversei com ele... um dia, dois dias... um ano...
    Um verão... um outono...
    Era pela manhã no começo... depois viramos tudo pro avesso
    Era de tarde... de noite... de madrugada,
    Não tinha mais hora marcada.
    Eu corria pro computador e quando não o encontrava...
    Ai que dor!
    Eu gostava das suas palavras...
    Até daquela risada que eu não podia ouvir,
    Mas que o meu coração podia sentir.
    Oieeeeee... tava te esperando!!!
    Oi amor... eu tava trabalhando
    Escrevi uma coisinha pra você, quer ver?
    Claro, pode mandar, eu sei que vou gostar.
    " Quando amanhece o dia e você não vem,
    O meu sol não brilha e eu choro pela falta da sua companhia."
    Ah... que lindo... tô aqui lhe sentindo!
    Como o amor virtual... não tem igual
    A gente diz tudo que pensa, tudo que precisa,
    Tudo que é permitido e até o que é proibido.
    Ele é bonito, ela é maravilhosa,
    Ele é sensual, ela é gostosa.
    Ele é inteligente, ela tem um jeitinho carente
    Ele é alegre, ela é ciumenta, ele anima, ela movimenta.
    Amor... eu tô com saudade
    Eu também, tô até com vontade...
    Hum...então vamu lá... tô pronta pra começar!
    Era sexo virtual toda hora
    E era gostoso... virava uma história.
    Era fantasia misturada com alegria
    Mas também rolava amor...
    E quando acabava, restava um gostinho de dor.
    É que não tinha em seguida o aconchego
    Nem o cigarro...
    Clicava-se num botão
    E apagava-se a emoção.
    Mas amanhecia o dia... e de novo,
    Nos fazíamos companhia.
    É, esse danado de amor virtual viciiiiia!
    A gente fica dependente daquele carinho
    Daquele ninho
    Daquele amor eletrônico
    Daquele carinho astronômico.
    Oi Amor!
    Oi meu bem...
    Hummmm...
    O que você tem? Tô sentindo uma tristezazinha...
    É ... tô na minha
    Vontade de lhe tocar... de lhe ver e de lhe beijar
    ...E nessa hora era uma chateação.
    Porque eu o tinha, mas ele não era meu,
    Eu era dele, mas ele não me tinha...
    Ô coisa complicadinha.
    Era um amor virtual, mas era real...
    Todo dia de manhã o meu sorriso se iluminava
    Antes de tomar café eu já conectava
    E quando puxava meus mails
    Nem queria saber de quem veio
    Ia direto na listinha do correio
    Procurando o seu e-mail...
    Até que saltava aos meus olhos
    *sempreseu@hotmail.com*
    Meu amor, hoje vou demorar a aparecer,
    Tô com trabalho até morrer...
    Mas prometo... não vou lhe esquecer.
    Daquelas palavras eu me alimentava
    Eu as